Balaio do Saci

O Saci pelos quatro cantos do mundo, curiosidades, artigos, músicas e referências diversas ao nosso insigne perneta, você vai 
encontrar aqui. Além disso publicaremos textos sobre folclore, Cantigas de Roda e outros temas da cultura.


O Saci esteve aqui

Olá, para todos:
Apenas um verso que escrevi em 1987 aî em São Paulo, quando em Brasilia 
estavam (me parece) escrevendo uma nova Constituição. Então me veio a 
idéia de escrever "O Sacî esteve aqui". Espero que gostem.
Abraços do Álvaro N. de Paula
Torrance, California....USA


O SACI ESTEVE AQUI

(Álvaro N. de Paula – 1987)
Ó gente lá de casa. O Saci esteve aqui.
O que ele contou, deu tristeza de ouvir.
O negrinho, coitado, chegou tremendo, todo assustado
Veio de avião com um árabe fanático sentado ao seu lado.
Pensou que o seu dia tinha chegado. Mas se acomodou
Pois dei-lhe uma boa pinga, e isso o acalmou.

Logo depois, porém, pobre capetinha, se deu a lamentar
Estava tão desolado. A ponto de chorar.
Pensativo o olhava -- aquela legenda do meu passado
Não podia me conformar -- ver o alegre pernetinha assim perturbado.
Mas com outra pinguinha se sossegou.
E cheio de coragem sua mágoa desabafou.

No Brasil, caro irmão, só se vê contradição
O governo constrói usina atômica. O pobre pede pão.
Tanto imposto é arrecadado
Contudo o país vive quebrado.
O cruzeiro, vítima da inflação, foi vestido de cruzado
O consumidor, no entanto, continua crucificado.

Quem vive bem é tubarão
O povo tem que se virar para poder comer feijão.
Tudo de bom é mandado para o exterior
Do dinheiro recebido o brasileiro nem vê a cor.
Há tanta comida. Riquezas. Que abundância!
Mas é tudo controlado pela mão da ganância.

A criança pobre, vítima de sua pobreza e da ignorância
Pequena já trabalha -- desconhecendo a doçura da infância.
O preto, o suor de seu passado ignorado, não tem vez
Não estava tão pior quando escravo do português.
E o índio, pelos poetas venerado.
Leva uma vida de condenado.

O oportunista com eloqüência ladra sua demagogia.
Enganando as massas mascarado de democracia.
O povo vive num estado de ilusão
Iludido por promessa de político, e sujeito a uma corja de ladrão
O país está enterrado. Todo endividado com banco estrangeiro.
Bilhões de dólares! E nem se sabe onde foi parar todo esse dinheiro.

A floresta, pouco a pouco vai tombando
Um progresso ilusório seu encanto está roubando.
Nossa flora, nossa fauna, está morrendo
O que não morre o contrabandista está vendendo.
Poluição. Falta de visão. Exploração e corrupção
Varre o país com suas garras de destruição.

Nossa identidade, música, cozinha, língua e tradição
Estão adulterando com produto de importação.
Temos que abrir os olhos! Encarar a realidade
Deixar o mundo da fantasia -- entrar o mundo da verdade.
Devemos preservar nossa cultura! Nossa singularidade
Nunca esquecer nosso valor -- nossa doce humanidade.

Em Brasília estão redigindo uma nova Constituição
Uma carta de deveres que garante direitos e proteção.
Mas temos que apoiá-la com patriotismo e devoção
Não podemos abandonar esta grande nação.
Não é crime ser pacífico, tolerante e bem-humorado
Mas é crime testemunhar injustiça e ficar calado.

Enfim, caro amigo, me perdoe a emoção
Tinha que abrir a boca. Desafogar o coração.
Proteger o Brasil é dever de todo brasileiro
Contra todo e qualquer usurpador. Nacional ou estrangeiro.
Nosso passado é um passado de luta, sacrifício, e glória
Não podemos desapontar os Vultos de nossa história.


 


 


 


 

"Antídoto para o esquecimento"


 

"Antídoto para o Esquecimento"
(Clarice Villac – Ilustração: Vlad Camargo)

O veneno do imperialismo cultural
Perverso ameaça
Nossa herança nacional
Pra que nosso folclore não vire fumaça
Precisamos de jeitinho e arte
Sabedoria e muita graça
Despertar histórias em toda parte
Nas estantes empoeiradas, nos ‘causos’ dos avós
É hora de acordar, vibrar vivo estandarte
Sacis, Curupiras, mães-do-mato, venham a nós !
Encantaremos os desmatadores vis
Biodiversidade nas matas, nos mitos, não estamos sós !
Assombraremos madeireiras e raloins com os Sacis !
Sacizada, molecada, imaginação, Iaras dos rios 
Sairemos do esquecimento, verdejantes Brasis !

 


125 anos

gorrinho vermelho
aparece desaparece
sorriso maroto

traz a notícia:
'Hoje tem festa na Sacilândia,
Monteiro Lobato aniversaria !'

pioneiro, pai de nosso imaginário
irreverente, pensamento livre,
transporta gerações,
das cidades ao convívio no Sítio
e viagens ao céu, à gramática,
aritmética, labirinto do minotauro,
chave do tamanho, almas de hamadríades...
evolução do pensamento humano
nas artes de uma boneca gente,
na sabedoria de um sabugo de milho...
brincadeiras, descobertas, convívio...

bolo de fubá
e histórias da vovó
Vive, Lobato !


Clarice Villac
17.04.2007 


 


 

Sacisperto & Sacimeiga

Ilustração: Vlad Camargo

Por aqui nestas Campinas
Venta muito, venta sim !
e tem moitas pequeninas
pra criar o Sacizim !

De um jeito disfarçado,
bem aqui nesse jardim,
mora o casal encantado:
Sacisperto & Sacimeiga !

Com cachimbinho do lado, 
mas coração de manteiga, 
passam o dia entretidos
nessa lida nada leiga...

Em aventuras metidos, 
ajudando o Curupira
estão sempre divertidos, 
com urbanóides na mira.

Escondendo os gatinhos
usam truques de caipira, 
acolhem os cachorrinhos
que as gentes abandonam
jogados pelos caminhos...

Seus pulos supervisionam
os bichos pro aconchego
nova vida impulsionam, 
para lares com chamego!

E levam esses amigos
ao merecido sossego!
Nas cidades há perigos
e Sacis fazem sua parte!

Vão além dos seus umbigos, 
saltitantes nessa arte!

Clarice Villac
04.06.2007 
Campinas-SP

 

 

Da Saciagem

Saci na mata

fica na moita

quando a coisa não ata e nem desata

e se o frio açoita

como incompreensão aristocrata

junto, a Saci com ele pernoita

e espantam o frio burocrata -

Alegria & Poesia, e só a Lua tresnoita.


 

Clarice Villac
13.06.2007
Campinas-SP


 


Saci, moleque brasileiro

 

Ditão Virgílio

1

Num tempo muito antigo
Numa época diferente
A Terra partiu no meio
Separou tão de repente
A África e o Brasil
Viraram dois continentes
Devagar se afastando
Mais e mais dali pra frente

2

Um neguinho que brincava
Tão entretido não viu
Perdeu uma das pernas
Quando a rocha explodiu
Naquela grande rachadura
Ele quase que caiu
Viu a mãe África se afastando
E ficou aqui no Brasil

3

Tentando desesperado
Pro outro lado voltar
Quis virar um passarinho
E pelos ares a voar
A distância aumentou
Não conseguiu atravessar
Então foi se acostumando
E aqui resolveu ficar

4

Brincava com os índios

Que habitavam aqui
Fazendo peraltice
Bulindo aqui e ali
Escondendo todas as coisas
Somente pra se divertir
Os índios, indignados,
O chamaram de Saci

5

Até hoje sua morada
É no grande bambuzeiro
Trança a crina dos cavalos
Gira no vento o tempo inteiro
Muito esperto bom de bolaBrincalhão e muito arteiro
Acabou se transformand
oNo moleque brasileiro

 


 

Ver ilustração (Ohi)


 

HALLOWEEN TUPINIQUIM

Autor: Simão Pedrosa - Belo Horizonte (MG)

 

Eu me vesti de Saci 
Pra festejar halloween, 
Um trem estranho senti, 
Pulando dentro de mim, 
Amedrontado fugi, 
Caí na mata sem fim.


II

Topei um garoto zorro 
Se rindo como ninguém, 
Girando sob seu gorro, 
Que nem coisa ruim do além. 
Naquele moleque forro, 
Meu corpo girou também.


III

Na esperança que o Saci 
Abortasse a diabrura, 
Assombrado, então corri 
No meio da mata escura, 
Perdido que nem Zumbi 
Saído da sepultura.

IV

Mas o moleque danado 
Rodava que nem pião, 
Deixando-me estonteado 
Naquela situação, 
Sem poder ficar parado 
No meio da agitação.


V

Fui entrando mato a dentro, 
Sem saber pra onde ia, 
Cabeça fora do centro, 
No corpo que rodopia, 
Na boca, um sabor de coentro, 
Na fala que não saía.



VI 
Foi aí que vi, então, 
Um ente descomunal, 
No corpo de um anão 
Montado num animal, 
Pelado que nem adão, 
Brandindo seu arsenal.

VII 
Coberto de farto pelo, 
A cara de um olho só; 
Era aquilo um pesadelo! 
De tão feio, dava dó. 
Melhor seria não vê-lo 
Pra cabeça não dar nó.

VIII 
Era a tal de Caipora 
No seu porco agarupada, 
Que no ato sem demora 
Convocou sua brigada. 
Um por um, na mesma hora, 
Foi chegando à galopada.

IX 
Caipora então chamou 
Curupira e Boitatá, 
Jaterê aconselhou: 
-Chame a Cuca e Rudá. 
E a roda se formou 
Em nome de Anhangá.


Também veio a Iara, 
Deus Monâ e Guaraci, 
Lobsomem caiçara, 
Papa-figo e Abaangui. 
No meio da noite clara, 
Foi que apareceu Jaci.

XI 
-Se é o Saci, não reconheço! 
Disse logo Boitatá,


Não vi o moleque travesso 
Pulando de lá pra cá; 
Com Saci, não me aborreço, 
É melhor deixar pra lá.


XII

-Também não é caçador. 
Caipora adiantou, 
Bicho-homem é assustador, 
Este nem me espantou. 
-E nem mesmo lenhador. 
Curupira emendou.


XIII

Mas nesse impasse absurdo, 
O que seria então? 
Esse estranho abelhudo 
Rodando que nem pião, 
Com este gorro pontudo 
E uma garrafa na mão?


XIV

O que seria afinal 
Esta figura estranha? 
Algum duende infernal, 
Ou certa bruxa medonha 
No meio de um ritual 
De uma vil artimanha?


XV

-É uma bruxa com certeza, 
Afirmou Mapinguari. 
Que saiu da profundeza 
Pra engolir nosso Saci, 
Pois falando com franqueza, 
Coisa igual, eu nunca vi.


XVI

Veio lá do estrangeiro 
Pra fazer feitiçaria 
Para o povo brasileiro 
Esquecer nossa magia. 
Quem aqui é trambiqueiro,


Não merece honraria!

XVII

-Por Tupã é que suplico, 
Salve nosso irmão Saci 
Desta bruxa que é um mico! 
Manifestou Guaraci, 
Do meu posto me abdico 
Se ela fica por aqui!


XVIII

Sou capaz de ir-me embora 
Dessas terras de Anhangá. 
Onde reina a Caipora, 
Curupira e Boitatá, 
Nenhuma Bruxa de fora 
De galo aqui cantará!


XIX

-Muita calma pessoal! 
Ponderou Jurupari, 
Isso tudo cheira mal 
Que nem bunda de sagui. 
Mais parece um capiau 
Travestido de Saci!


XX

Não se avexe minha gente, 
Vou armar uma arapuca. 
Tenho aqui na minha mente 
Certa ideia bem maluca: 
Colocar o tal demente 
No caldeirão quente da Cuca.


XXI

Ouvindo isso, o Saci, 
Num pé-de-vento, acudiu: 
-Pessuar, ispera aí 
Carái, puta qui pariu! 
Qui furdunço é esse aqui? 
Deu um trago e se riu.



XXII

Nun tá veno qui sô eu 
Festejano o raloím, 
Co´o bocó qui si meteu 
Co´os assunto do sem-fim? 
Esse abeiudo aprendeu 
Qui ninguém manga de mim!


XXIII

Atarantado fiquei 
No meio da confusão. 
Quis correr, mas tropiquei, 
Cai de cara no chão. 
Depois de um tempo acordei, 
No meio de um capão.


XXIV

A noite havia fluido, 
O dia já estava a prumo. 
Matutando o acontecido, 
Levantei meio sem rumo. 
Foi um sonho descabido! 
A desculpa, logo assumo.


XXV

Mas olhando bem pra mim, 
Eu me vi como um Saci. 
Lembrei-me do halloween, 
Como fui parar ali, 
Da bicharada em motim 
No beira de um frenesi.


XXVI

Nessa noite de Zumbi, 
Na minha imaginação, 
Sem querer eu aprendi 
Muito caro esta lição: 
Em terra de Rei Saci, 
Halloween não vinga não!


XXVII

Toda lenda neste mundo 
Segue a própria tradição,


Num sentimento profundo 
Na alma de uma Nação, 
Não importa se oriundo 
Da crendice ou da razão.

XXVIII

É tão rica nossa lenda 
Quanto a nossa natureza, 
É preciso que se aprenda 
Valorar esta riqueza, 
Retirar de vez a venda, 
Pra enxergar nossa grandeza.


XXIX

Celebrar lenda estrangeira
É sinal de ignorância, 
Mas a mídia interesseira 
Por dinheiro e por ganância, 
Pra cultura brasileira 
Não dá devida importância.


XXX

Vai o povo, alienado, 
Nossas crenças esquecendo, 
Matando nosso legado 
De forma que não entendo. 
Um povo tão liberado, 
Mas como escravo vivendo.


Autor: Simão Pedrosa 
Belo Horizonte-MG,


http://www.controversos.recantodasletras.com.br/


 

HISTÓRIAS


 

Nheengatu e dialeto caipira

O professor José de Souza Martins, estudioso de cultura popular e um potencial saciólogo, escreveu uma bela carta a um leitor seu, Benedito Carneiro, que muito contribui para o entendimento da linguagem e cultura caipira. Abaixo, o texto do professor:


O considerado “falar errado” nesse caso de fato não é “errado”. Trata-se de um dialeto. No caso do falar caipira, trata-se do dialeto caipira, uma variação dialetal da língua portuguesa fortemente influenciada pelo nheengatu ou língua geral. O dialeto caipira não foi criado pelos jesuítas.

Foi-o o nheengatu, que de fato é tupi regulado pela gramática da língua portuguesa, com inclusão de palavras espanholas e portuguesas. A língua nheengatu se desenvolve numa época em que em que o Brasil, sendo colônia de Portugal, era-o da Espanha, em virtude da unificação das coroas desses dois países, de 1580 a 1640. Sobre o nheengatu, o padre Anchieta escreveu uma gramática e deixou várias orações e textos traduzidos. Do século XVII, há o dicionário de Pero de Castilho. Já o dialeto caipira é língua dialetal derivada da interação entre o português e o nheengatu. Estudos pioneiros a respeito foram os de Amadeu Amaral. Mais recentemente Ada Natal Rodrigues fez acurado estudo lingüístico sobre o dialeto caipira na região de Piracicaba. Aliás, na Universidade de São Paulo há um curso regular de língua tupi, ministrado por um competente especialista.

O dialeto caipira decorreu, no meu modo de ver, da predominância do português falado sobre o português escrito, num universo de fala em que a população também falava nheengatu cotidianamente, mais do que o português. Minha impressão é a de que o dialeto caipira resulta das dificuldades de nheengatu-falantes para falar o português. É nesse sentido que afirmo que o dialeto caipira é uma derivação ou um desdobramento do nheengatu. Ou seja, estamos falando de populações bilingües. Há algum tempo a Câmara de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, bem na fronteira, aprovou lei que reconhece o nheengatu como língua oficial, junto com o português (e o espanhol), pois sua população fala as três línguas. Presumo que haja casos desse tipo da região fronteiriça do Mato Grosso do Sul.

É claro que o dialeto caipira, como qualquer língua, também é dinâmico e evolui. Nota-se isso na facilidade de incorporação de palavras novas da língua portuguesa, neologismos, mas também estrangeirismos, devidamente adaptados à pronúncia dialetal.

As dificuldades de pronúncia de certos sons da língua portuguesa pelos índios dos séculos XVI a XVIII e também pelos mestiços, seus descendentes, os chamados caipiras, marcaram fundo as sonoridades do dialeto caipira. Algo parecido com as dificuldades que nós temos para línguas estrangeiras e povos de outros países têm para falar línguas diferentes das suas. Um dos professores de inglês que tive na vida era escocês. Confessou-me ele que, apesar de ter sido educado em língua inglesa, continuava sentindo dores no rosto quando falava inglês (continuava falando o escocês) porque tinha que forçar a musculatura da face para falar a língua inglesa. Ou seja, há certos sons impossíveis de pronunciar corretamente numa boca estrangeira.

Os jesuítas utilizaram o tupi como referência para elaboração do nheengatu aparentemente porque foi a primeira língua com a qual tiveram contato no Brasil, falada pelas tribos da costa brasileira. Mas disseminaram o nheengatu em todo o Brasil, no trabalho missionário, até mesmo entre povos de outros troncos lingüísticos, como o jê, povos, aliás, inimigos crônicos dos povos tupi (caçadores, uns, e agricultores, outros). O nheengatu foi na verdade um modo de unificar lingüisticamente tribos que falavam variações da língua tupi. Foi, sobretudo, uma forma de ter além de uma fala, uma escrita.

Na verdade, o dialeto caipira, resíduo de uma proibição do rei de Portugal, se refugiu no interior do Brasil, onde era menor o alcance da repressão lingüística determinada pelo monarca no século XVIII. Por outro lado, as cidades da costa, especialmente as cidades portuárias, estiveram sempre voltadas “para fora”, de costas “para dentro”, como dizia Frei Vicente do Salvador, primeiro historiador brasileiro, baiano do século XVII. A maior influência dos portugueses legítimos nessa área da colônia e, depois, do país, firmou-se, sobretudo, a partir do século XVIII, quando a capital da colônia foi transferida da Bahia para o Rio de Janeiro. Além disso, a fortíssima presença do negro escravizado nessa costa, atenuou a importância do dialeto caipira e introduziu sonoridades de línguas africanas, o que é bem claro na Bahia e em Pernambuco, mas também no Rio. Aliás, a USP também tem um curso de língua Yorubá, a mais falada das línguas africanas no Brasil e a mais presente em ritos e práticas religiosas.

Espero que esses esclarecimentos lhe sejam úteis.


 


 

O Dinossauro-Saci

 

Por Marta Gil – São Paulo


01/11/2006

BRASILEIROS DESCOBREM "DINOSSAURO-SACI" NO RIO GRANDE DO SUL
Grupo só achou ossos de uma das pernas do herbívoro de 1,5 m, que viveu há 220 milhões de anos; animal é de tipo nunca visto no Brasil
Concepção artística mostra o novo dinossauro 
Demorou um pouco para que os paleontólogos Max Cardoso Langer e Jorge Ferigolo percebessem o potencial da brincadeira: um dinossauro do qual foram recuperados nada menos que 12 fêmures, todos da perna direita e nenhum da esquerda. Na hora de batizar a nova espécie, não tiveram dúvidas: Sacisaurus agudoensis é o nome da criatura, que está sendo apresentada ao público hoje e representa o primeiro registro no Brasil de uma das principais linhagens de dinossauro. De quebra, pode reforçar a idéia de que os dinos são um grupo de origem sul-americana.

 


 

 

É claro que, na vida real, o bicho não era um saci de verdade, esclarece Langer. A falta do fêmur esquerdo foi mero golpe de sorte no processo complicado e aleatório que leva à transformação de um osso em fóssil. Por algum motivo, a pata esquerda acabou se desintegrando. "Depois que a gente escolheu o nome teve gente que veio nos perguntar se o saci-pererê não tinha mesmo a perna esquerda. Parece que, na verdade, ele não tem a perna direita, mas não faz mal -- afinal, o nome é uma brincadeira mesmo", ri ele.

Piadas à parte, o comedor de plantas com tamanho estimado de 1,5 m adiciona uma peça muito esperada ao quebra-cabeças dos dinos brasileiros. Tudo indica que ele pertence ao grupo dos ornitísquios, o mesmo que daria origem a herbívoros gigantescos, como o Triceratops, com seus três chifres, ou Stegosaurus, dono de imensas placas nas costas. Acontece que o Sacisaurus está muito próximo da raiz dessa linhagem, tendo vivido há 220 milhões -- uma época em que os dinossauros como um todo eram um grupo recém-chegado, tentando se firmar num mundo hostil.

Sangue gaúcho
Não é de hoje que dinossauros tão antigos quanto o Sacisaurus são encontrados nas rochas gaúchas do Triássico, como é conhecido o período geológico no qual ele viveu. No entanto, todas as criaturas encontradas antes no Brasil pertencem ao grupo dos saurísquios, o outro grande ramo da árvore genealógica desses bichos. É verdade que algumas pegadas preservadas em locais como a Paraíba e Araraquara (interior de SP) indicavam a presença de ornitísquios mais tarde, mas só fósseis poderiam confirmar de vez isso.


Os restos vêm da cidade de Agudo, na região central do Rio Grande do Sul, e vão de vértebras da cauda a pedaços dos quadris, do maxilar e da mandíbula. A mandíbula, aliás, é uma das chaves para o parentesco do bicho com os ornitísquios. Ela tem uma extremidade "banguela", conhecida como osso pré-dentário, que apenas esse grupo possuía. Por outro lado, seu esqueleto é tão arcaico que ele ainda lembra os saurísquios em certos aspectos, como a posição do osso do púbis -- voltado para a frente, e não para trás, como nos ornitísquios mais recentes.

Daí uma certa cautela de Langer, que é da USP de Ribeirão Preto, e de Ferigolo, da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, a respeito de como classificar o bicho. "A verdade é que você nunca tem 100% de certeza, mas eu o consideraria um ornitísquio", afirma Langer. Se isso for verdade, o tal osso pré-dentário do Sacisaurus (que em vida estaria coberto por uma espécie de bico, estranhamente parecido com o de um papagaio) dá uma pista interessante de como os ornitísquios desenvolveram a estrutura. No fóssil gaúcho, ele é formado por duas partes, enquanto nos bichos mais recentes ele forma uma estrutura só -- a qual, provavelmente, se fundiu ao longo da evolução do grupo.

A extremidade banguela, explica o paleontólogo da USP, provavelmente servia para estabilizar a ponta da mandíbula e ajudar o bicho a mastigar as plantas de que se alimentava. Dinossauros não tinham dentes especializados em triturar comida, como os molares dos mamíferos; assim, o pré-dentário permitia um certo movimento lateral na mastigação, permitindo algum grau de maceração dos vegetais antes que o bicho os engolisse.

Origem sul-americana
O S. agudoensis é mais um membro na lista de dinos muito primitivos que fazem muitos pesquisadores suspeitar de uma origem sul-americana para o grupo inteiro -- em especial nas rochas de idades semelhantes compartilhadas entre o sul do Brasil e a Argentina. "O Sacisaurus apenas corrobora esses dados, que já são bastante fortes", diz Langer.

Como na época os continentes do planeta inteiro estavam reunidos numa única grande massa de Terra conhecida como Pangéia ("terra inteira", em grego), há gente que critica a idéia, dizendo que a aparente origem sul-americana poderia ser mero resultado do fato de que por aqui as rochas da idade certa foram preservadas, tendo sendo erodidas em outros continentes.

"Fica a pergunta: será que a região não tinha os animais ou simplesmente não tem as rochas? No caso da África, parece que é realmente o caso de não ter as rochas. Porém, em outros lugares, como a Índia ou os Estados Unidos, onde isso não acontece, não há nada de dinossauros, ou apenas cacos ínfimos -- o que acaba nos levando de novo para a América do Sul", afirma Langer.

O estudo descrevendo a nova espécie foi publicado on-line na revista científica "Historical Biology" e recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.


 

MÚSICA


 

Saci

(Guinga e Paulo Cesar Pinheiro) 

Quem vem vindo ali
É um preto retinto e anda nu 
Boné cobrindo o pixaim 
E pitando um cachimbo de bambu 

Vem me acudir 
Acho que ouvi seu assovio 
Fiquei até com cabelo em pé 
Me deu arrepio, frio

Quem vem vindo ali
Tá capengando numa perna só 
Só pode ser coisa ruim 
Como bem dizia minha vó

Diz que ele vem
Montado num roda-moinho 
ah sei quem é, já vi seu boné 
Surgir no caminho

Quando ele vê qu'eu me benzi 
E que eu me arredo, cruz credo
Solta uma gargalhada 
Some na estrada

Voz: Mônica Salmaso
Violão de aço ("borboleta"), Percussão em Violões, Viola, Cavaquinho e Arranjo: Paulo Bellinati
CD: Trampolim 
Ano: 1998
Gravadora: Pau Brasil

Saci no Carnaval

Robson Moreira


Neste Carnaval 
O Saci vai aprontar
Vai trazer a sua turma
Para a festa esquentar

E aí então, o bicho vai pegar (refrão)

Vem a Mula-Sem-Cabeça 
Ai que coisa de assustar
Mas o Boto e a Iara
Foram feitos pra alegrar

O pior eu não falei
Veja só quem vai chegar
É o invocado Curupira
Com o maluco Boi-Tatá

É Saci pra cá
É Saci pra lá
Pula pula numa perna só
Pula pula até o sol raiar

É Saci pra cá
É Saci pra lá
Pula pula numa perna só 
E aí então, o bicho vai pegar

A Saga do Saci

 

Letra e Música: Flávio Venturini Marchesin


Desde cedo o Saci sonhava ser um ídolo nacional,
ou até mundial
Pulou amarelinha mas passaram-no pra trás,
perdeu pra Teresinha que usou um pé a mais
No outro semestre correu a Sacilvestre
mas foi tudo em vão, largou na contramão
Saci sensível se sentiu só,
sentiu-se sem sorte seu sonho assassinado sem dó

“Mas quem tem toca vai à Roma”, ele pensou
“Quem sabe lá não reconheçam meu valor?”
Seu pai dizia “Ser Saci não é mole não,
mas é melhor um pé pulando do que dois no chão”

Vai, Saci!
Pega a touca, sai da toca e
Vai, Saci!
Sai de touca, toca e vai
Vai, Saci!
Pega a touca, sai da toca e
Vai, Saci!
Saciar seu sonho, vai Saci

Decidiu tentar, partiu sem olhar pra trás
e até vendeu Osmar – seu canário de listras lilás
Foi pro Futebol pra fazer fortuna e tal,
voltar de Ferrari e impressionar o Sacizal
Pegou o cachimbo com fumo turbinado,
entrou em campo pulando, mais que pulga de abadá
Saci canhoto não foi bem escalado,
usava o pé dali jogando na ponta de cá

O treinador ajoelhou e disse: “Alá!”
“Alá o menino que não pára de pular”

Vai, Saci!
Pega a touca, sai da toca e
Vai, Saci!
Sai de touca, toca e vai
Vai, Saci!
Pega a touca, sai da toca e
Vai, Saci!
Saciar seu sonho, vai Saci

Noite chuvosa, o empate era fatal
Mas num segundo, veio a idéia genial
A arma secreta disparava com um pé
Fez gol de bicicleta, o Rei Saci-Pelelé

Vai, Saci!
Pega a touca, sai da toca e
Vai, Saci!
Sai de touca, toca e vai
Vai, Saci!
Pega a touca, sai da toca e
Vai, Saci!
Saciar seu sonho, vai Saci


Pererê

 

Ivete Sangalo

Ha,ha,ha,ha,ha...
Pê Pê Rê Rê Pê Pê Pê Pê
Pê Pê Rê Rê Pê Pê Pê Pê
Pê Pê Rê Rê Pê Pê Pê Pê
Pê Pê Rê Rê Pê Pê Pê Pê
Pererê saiu na capa do jornal!
fumando cachimbo em pleno carnaval!
Pererê não gosta de sorvete quente!
Pererê só pula carnaval com a gente!
Pê Pê Rê Rê Rê Rê Pê Pê
Pê Pê Rê Rê Rê Rê Pê Pê
Pê Pê Rê Rê Rê Rê Pê Pê
Pê Pê Rê Rê Rê Rê Pê Pê
Pererê não gosta de fumar cigarro!
Pererê não bebe quando sai de carro!
Pererê não faz amor sem camisinha!
Pererê não come nada sem farinha!
Pê Pê Rê Rê Pê Pê Pê Pê
Pê Pê Rê Rê Pê Pê Pê Pê
Pê Pê Rê Rê Pê Pê Pê Pê
Pê Pê Rê Rê Pê Pê Pê Pê
Quando vira índio, ele fica nú
Na salada dele, tem tomate crú
Perere é o mais querido do Brasil
Perere só quer pular atrás do trio

Vai pererê,vai Pererê,vai pererê pererê pererê
Vai pererê,vai Pererê,vai pererê pererê pererê

Pererê saiu na capa do jornal!
fumando cachimbo em pleno carnaval!
Pererê não gosta de sorvete quente!
Pererê só pula carnaval com a gente!
Pê Pê Rê Rê Rê Rê Pê Pê
Pê Pê Rê Rê Rê Rê Pê Pê
Pê Pê Rê Rê Rê Rê Pê Pê
Pê Pê Rê Rê Rê Rê Pê Pê
Perere não gosta de fumar cigarro!
Perere não bebe quando sai de carro!
Perere não faz amor sem camisinha!
Perere não come nada sem farinha! Mizeravão!
Pê Pê Rê Rê Pê Pê Pê Pê
Pê Pê Rê Rê Pê Pê Pê Pê
Pê Pê Rê Rê Pê Pê Pê Pê
Pê Pê Rê Rê Pê Pê Pê Pê
Quando vira índio, ele fica nú
Na salada dele, tem tomate crú
Perere é o mais querido do Brasil
Perere só quer pular atrás do trio

Vai pererê,vai Pererê,vai pererê pererê pererê
Vai pererê,vai Pererê,vai pererê pererê pererê

Para ouvir a música:

http://vagalume.uol.com.br/ivete-sangalo/videos/QkHGrmxN_rk-ivete-sangalo-perere-ao-vivo-na-suica.html


 


 

Culinária


 


 

À mesa, com o Saci

A SOSACI andou recebendo algumas solicitações de curiosos querendo mais informações sobre o estilo de vida dos Sacis. Entre as curiosidades, vale destacar os hábitos culinários (e etílicos) dos pernetas. Então, azeite a panela de barro, a colher de pau e o bule de ágata...
O cardápio do Saci é muito variado, mas uma equipe de saciólogos se esmerou em apontar alguns itens obrigatórios, baseados nos lugares em que passaram e nas lembranças de amigos. Quem viajou por outras bandas com certeza viu o Saci comer outras coisas.

No café da manhã, ele traça umas frutas, principalmente banana, e em seguida ataca um prato de mingau de fubá (é feito com leite, bem quentinho, com canela em cima). Depois faz um café ralinho, pra tomar em caneca, ou um chá de hortelã, funcho ou outro matinho. Às vezes, usa o fedegoso pra fazer “café”. Esse mato torrado e moído dá um cafezinho bom pra quem não tem grana pra comprar. Aí, acompanha a beberagem com broa de fubá, biscoito de polvilho e/ou pau-a-pique (uma espécie de broa feita com fubá, amendoim, coalhada, açúcar, uma pitadinha de sal e canela, enrolada em folha de bananeira para assar – quem não conhece pode ir a Nova Resende, no Sul de Minas, que tem até nas padarias). Às vezes, toma um mingau de araruta.

Antes do almoço e do jantar, ele não dispensa uma cachacinha de primeiríssima qualidade. Para acompanhar o almoço, gosta de um suco de cambuci, de goiaba ou melancia.

A comida do almoço e do jantar tem como base o arroz com feijão e farinha de milho. Macarrão, às vezes, mas como “mistura”, junto com o arroz e feijão. O feijão vem embaixo, depois a farinha de milho e em cima o arroz. Em cima do arroz, a(s) mistura(s): banana (crua), frango caipira ensopado, carne de porco, abóbora, couve, batata-doce, mandioca frita ou cozida, jiló, quiabo, cará, inhame, mangarito (da família do inhame e do cará), ora-pro-nobis (uma verdura que tem em Minas, você pode conseguir uma muda em Ouro Preto, Diamantina... – é uma trepadeira, cactácea, com folhas feitas como couve, sempre rasgada, nunca cortada, e que tem baba como quiabo – acredite! É verdade), carne de vaca moída, bem temperada... tudo com pimenta malagueta ou comari.

Saci gosta muito de salada de folha de urtiga – de preferência aquelas novinhas (elas não coçam, só o caule). Deixe-as de molho em água com vinagre e depois é só temperar a gosto. Outras comidas do Saci: 
- brotos de samambaia (prepara-se que nem quiabo)
- cambuquira (que são as flores da abobreira das quais não nascem abóboras). Elas têm uso múltiplo e o Saci as come na forma de salada, de sopa ou de recheio no omelete.
- lambari frito, bem torrado, de modo a se comer com espinha e tudo. Os bons, mesmo, são aqueles pequeneninhos, que não carecem nem de limpar. Frita-se do jeito que sai do rio. Aqui, uns pingos de limão caem muito bem. E a cachaça da boa, é claro.
- fritada de bundinha de Içá (a popular Tanajura). O acompanhamento é o mesmo indicado para os lambaris.
- Ingá, que é uma frutinha polpuda e doce que dá em vagens nas pontas das galhas. As galhas caem todas, e sempre, para dentro do rio e o Saci adora se dependurar nelas para catar. Ele, inclusive, deixar cair de propósito alguns caroços, pois Ingá e coisa que as traíras comem que é uma beleza. 

Além disso, um dos principais pratos apreciados pela sacizada: a paçoca de carne. É feita no pilão, com carne seca, farinha de milho, sal e temperos. Pode ser comida com feijão e arroz, além de outras misturas, ou levada em viagens, pois não estraga.

E mais algumas coisas: 
- taioba (a folha, refogada como couve - cuidado pra não pegar taioba brava); 
- trevo (isso mesmo, aquele trevinho que dá em qualquer lugar é gostoso nas saladas) 
- paçoca de amendoim - é a tradicional paçoquinha, só que feita em casa, no pilão. Ela fica uma espécie de farofa, tem que ser comida com colher; 
- suco de graviola 
- suco de maracujá (este exige um cuidado: a semente, se quebrada, tem um pó tóxico dentro. O jeito certo de fazer é não ligando o liqüidificador pra "bater" a semente, é ligando-desligando rapidamente, várias vezes, só pra descolar a polpa da semente. Depois disso, coar...) 

De sobremesa, rapadura, pé-de-moleque (não esses feitos com Karo e amendoim inteiro – é de rapadura derretida, misturada com amendoim moído), doce de casca de laranja, doce de cidra (de preferência com rapadura, em vez de açúcar, fica amarronzado), banana assada com canela, banana cozida com mel e canela, bananada, goiabada cascão com queijo ou frutas como goiaba, manga, juá, pitanga, gabiroba, amora do mato, cabeludinha, fruta-do-conde...

Depois disso tudo, é preciso um cafezinho e um cigarrinho de palha – de preferência numa rede ou num banco virado para um lugar bonito, pra fumar calmamente, olhando a paisagem – isso depois do almoço, claro. À noite, depois do jantar, com direito ao cafezinho, o cigarro de palha é pra acompanhar um proseado, uma contação de causos (incluindo de assombração). Se tiver alguém que toque bem uma viola, melhor ainda. Entre um causo e outro, uma música. Tem que ter um bom puxador de conversa pra que cada um conte seu causo.
Ah... não se esqueça do lanche da tarde: uma espiga de milho assada ou cozida, um chá ou café com quitanda (quitanda aqui, no sentido mineiro: broas, biscoitos, roscas...).


 

Manifesto Antropófago revisitado

Qualquer semelhança com o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, do ano de 1928, não se trata de mera coincidência!


Só o saci nos une. Sacialmente. Etnicamente. Culturalmente. No ano 449 da deglutição do Bispo Sardinha em Piratininga, e 75 anos após o lançamento do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, os saciólogos desta terra vão, aos pulos, convergindo em torno da única lei justa do mundo globalizado. O saci resgata nossa identidade, nossas raízes, o xis da questão tupi. Contra todas as catequeses do Império só nos interessa o que não é deles. A lei do saci.


Estamos fatigados de todos os colonialismos travestidos de drama roliudiano. O cinema americano devorando corações e mentes. Demente. No país onde dá status ter casa em Maiami e comprar em sales com 20% off. Estacionar no valet parking e pedir comida delivery. Por isso fazemos eco ao brado oswaldiano, contra todos os importadores da consciência enlatada. Oswald ainda grita, resquícios do nheengatú ecoando ao longe. Nunca admitimos o nascimento de Jeca Tatu entre nós. Só que o Jeca de Lobato resiste. Ele resiste ao Pato Donald, aos Poquemons, ao Raloim, às bruxas do Bush. 

O instinto do Saci. Só Saci. Um Saci contra as histórias do homem que começam no Cabo Canaveral. A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. E os transfusores de sangue. Das veias abertas da América Latina. Antes dos norte-americanos ocuparem o Brasil, o saci já tinha descoberto a felicidade. Definida pela sacizidade de um antropófago, o próprio Saci. A transfiguração da Abóbora em carne seca. Antropofagia. Absorção do inimigo abóbora. 

A nossa independência já foi proclamada no 7 de Setembro, em São Luís do Paraitinga. Expulsamos o imperialismo travestido de globalização hegemônica. Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada em Washington e Londres, a realidade sem complexos e sem penitenciárias do saciarcado de Pindorama. 

São Luis de Paraitinga, 31 de outubro de 2003, ano da deglutição final da abóbora


Confraria do Saci


 

Fundada na cidade de Marília, em São Paulo, no início de 2004, a Confraria do Saci tem por objetivo valorizar a cultura caipira brasileira e conscientizar novas e velhas gerações sobre a importância de preservar a mata, que é onde mora o Saci. No dia 29 de outubro, a Confraria realiza seu II Encontro, quando pretende desprestigiar o raloim das bruxas. “Somos todos jovens acima de 30 anos”, diz Paulo Ramos, um dos 15 confrades.


 

É Tempo de Saci


 

Mais do que nunca, é tempo de Saci. É preciso falar de Saci, ver Saci, entender Saci. Afinal, hoje as pessoas estão se esquecendo, não só do Saci, mas da Mula-sem-cabeça, assombrações, Curupiras, Mães d´água, Boitatás e outros bichos . 
Nas escolas (trabalho numa APAE), as professoras conseguem acabar com a magia desses seres encantados, colocando-os como matéria de prova. Imagina, fazer prova de Saci, palavra cruzada de Saci, exercícios de português de Saci, dever de casa de Saci, que horrível.
Isso é coisa de gente doida da cabeça, que nunca viu Saci, não acredita em assombração e acha que Mula-sem-cabeça é mentira. Outro dia, fui falar de folclore para uma sala de 4ª série do ensino fundamental e pedi uma definição do que seria uma lenda, eles responderam: lenda é um monte de história mentirosa que o povo conta p'ra gente, p'ra pôr medo. Grande engano, eu disse, pois, eu provo que não é mentira. Tenho até foto da Mula-sem-cabeça e quem quiser, digo e provo.

Ismael P. Siqueira
Pouso Alegre – MG


 


 

Sinais do Saci

 

Como receber sinais do Saci

Olá, tudo bem?

Algum tempo atrás, recebi uma carta pelo correio que ensinava a receber sinais do Saci. A carta é esta que vou escrever abaixo, da mesma maneira que recebi e com as mesmas palavras:

Para receber sinais do Saci, deve-se, durante um mês, dizer assim: “Saci, vou receber um sinal seu”! Os sinais vêm através de coisas estranhas como visões de vultos, arrepios, sensação de que alguém está chamando e não ter ninguém chamando, sonhos bonitos, barulhos esquisitos, entre outros sinais. Às vezes, os sinais vêm quando menos se espera. Fique atento e não tenha medo. O Saci é do bem.
Tenha um contato pessoal com o Saci. Tire 3 ou mais cópias desta carta e envie para 3 ou mais pessoas. Guarde um cópia com você e terá sorte em muitas áreas da vida, pois estará ajudando outras pessoas a receberem sinais do Saci.

Um abraço para todos vocês aí da Sociedade dos Observadores de Saci,

Arumam
Chavantes - SP 


A música e a perna do Saci

CADERNO 3 
COLUNA (30/10/2008)
Flávio Paiva


Em uma vasculhada pelo acervo do pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez), do jornalista Nelson Augusto, da Rádio Universitária e nas minhas próprias reservas fonográficas, encontrei dezenas de músicas compostas por força da existência do Saci-Pererê. Em todas as décadas do último século, o Saci foi cantado com muita espirituosidade nos mais distintos ambientes da música plural brasileira. Esse fenômeno de expressão de vigor marginal aos interesses dos sistemas dominantes reforça a minha hipótese da perna invisível da cultura, segundo a qual os casos de amputações simbólicas, como o da perna do Saci, estariam relacionados a uma resposta neurocultural de valorização das essências e não das formas ou funções.

Em 1909, o dueto Saci-Pererê de Chiquinha Gonzaga é gravado pela dupla Os Geraldos. No ano de 1913, a polca Saci, de J.B. Nascimento, chega ao disco de cera pelo Sexteto da Casa. Na década de 20, Gastão Formenti grava uma toada (1918) e uma canção (1929) com o mesmo título Saci-Pererê, mas de autorias de Joubert de Carvalho e de J. Aimberê/Bide. Os anos 30 contam com a canção Teu olhar é um Saci, de Cipó Jurandi e Décio Abramo, na interpretação de Arnaldo Pescuma (1930) e com o batuque Saci-Pererê, de J.B. Carvalho, com o Conjunto Tupy (1932). O título Saci-Pererê se faz presente na década de 40, na polca de Mário Genari Filho (1948), e no arrastapé de Ivani, gravado pela dupla Zé Pagão & Nhô Rosa (1949).

E o cancioneiro de sacizisse segue na segunda metade do século passado com o baião Saci, de Antônio Bruno e Ernesto Ianhaen, na voz de Inhana (1956) e duas músicas Saci-Pererê, uma marcha, de Carlinhos e Galvão, registrada por Edir Martins (1957) e um cateretê, de Torrinha e Piracicaba, na bolacha de cera com Torrinha & Canhotinho (1959). Nos anos 60, Araci de Almeida grava a marcha Saci-Pererê, de Henrique de Almeida e Rubi (1960), Demetrius põe a voz em Rock do Saci, de J. Marascalco e Richard Penniman (1961) e Clóvis Pereira interpreta Samba do Saci, de Osvaldo Nunes e Lino Roberto (1963).

A década de 70 torna-se fértil em composições sacizísticas. Os Secos & Molhados cantam ´Bailam corujas e pirilampos / entre os sacis e as fadas´, na música O Vira, de João Ricardo e Luli (1973). Os Almôndegas entoam ´Quando a meia-noite me encontrar junto a você / algo diferente vou sentir / vou precisar me esconder / Na sombra da lua cheia / nesse medo de ser um vampiro, um lobisomem, um saci-pererê´, na Canção da meia-noite, de Kleiton e Kledir (1975). Guto Graça Mello compõe Saci, instrumental para o disco do Sítio do Picapau Amarelo (1977), e Saci-Pererê é título de música da Banda Terreno Baldio (1977) e de Guilerme Lamounier (1978).

Nas duas últimas décadas do século XX a sacizisse continua com Saci, de Paulo Jobim e Ronaldo Bastos, em vinil do grupo Boca Livre (1980), Sacirerê, de Ruy Maurity e Zé Jorge, com Ruy Maurity (1984), Sasaci Pererê, de Jorge Bem Jor (1986) e Saci-Pererê, de Gilberto Gil (1980). De Niterói, Bia Bedran canta a infância para despertar o Brasil, ´Brincar no quintal / Pra renascer a criança / Moleque levado / Saci-Pererê´, na sua emblemática Quintal (1992). Villani-Cortês lança a peça para flauta A terceira folha do diário do Saci (1994), o violonista Carlinhos Antunes, compõe Saci-Pererê (1996) e a cantora Mônica Salmaso grava Saci, de Guinga e Paulo César Pinheiro (1998).

De nota em nota, o Saci pula de século, impulsionado pela música. Itamar Assumpção faz um alerta ambiental, ´Eu fui a Cuiabá pra no Pantanal olhar a bicharada / eu fui pra ver não vi, que decepção senti / Vi quase nada / Eu não vi o quati, não vi anta nem sagüi, onça pintada / Eu não vi o saci, não vi o grilo cri-cri / Vi quase nada´ e canta Adeus Pantanal com Tetê Espíndola (2000). A música Saci de Guto Graça Mello, permanece no Sítio da Dona Benta, mas muda o título para Pererê Peralta, em versão com Carlinhos Brown, ´Pula, pula, some e dança / como uma criança segue seu destino / se esconde na floresta / nunca perde festa / quer se divertir´ (2001). Gal Costa grava Grande Final, de Moraes Moreira para dizer que ´Viver da pé, dá pé viver / Pé de saci / Pererê, pererê, pererê´ (2004). O grupo A Cor do Som balança em cd com Dança, Saci, de Mu Carvalho, (2006).

Entro nessa ciranda de saciedade e componho, em parceria com Orlângelo Leal, da Banda Dona Zefinha, a música A Festa do Saci, ´Estou aqui meu Saci / estou aqui chamei você / Pererê chamei você / Pode chegar, me abraçar / o vento é bom de assobiar / Sou Boitatá, sou Caipora / Me apavora, eu vou gostar´ (2007). Em homenagem a Francisco Mignone, a pianista Clélia Iruzun grava Saci (2008). O Quarteto Pererê, que já tinha feito Saci Armorial e Suíte Sacizística, junta as pontas do passado e do presente em uma só roda musical, com a Polka do Saci, adaptação da polca Sacy-Pererê, de Sebastião Nogueira de Lima (1917), e a canção Liberdade Pererê, de Dinho Nascimento, ambas gravadas no cd Balaio, que ainda está para sair da fábrica (2008).

A gravação da polca Sacy-Pererê cumpre, um século depois de sua criação, o desejo de um dos participantes da pesquisa que o escritor Monteiro Lobato fez em parceria com o jornal O Estado de São Paulo, em 1917. Mesmo se considerando ´com poucos recursos artísticos´, Sebastião Nogueira de Lima deixou a partitura dessa composição que fez para o Saci, inspirada no canto de chamada de um passarinho, ´habitante de brejos e margens de rios´, que ´quase fala - sacy-pererê´. Ao fazer sua escrita musical, o autor dessa polca para piano declarou literalmente a intenção de contribuir ´para que os novos compositores musicaes se inspirem, concorrendo, assim, para a glorificação do Sacy-Pererê´. E, como felizmente podemos testemunhar, seu esforço não foi em vão.

Da mesma forma que a imagem do Saci pode representar, na psicologia junguiana, as sombras da rejeição aos atributos lúdicos que não se ajustam aos padrões de comportamento estabelecidos pela sociedade, essa imagem foi racionalmente segregada nos filtros do prestígio cultural brasileiro, por força dos interesses religiosos e políticos investidos na modelagem da nossa mentalidade colonial. A solução oficial encontrada para evitar que o mito continuasse agindo no cotidiano das pessoas foi a do aldeamento comemorativo. Por isso, em todo mês de agosto as escolas levam as crianças para um passeio no zoológico do folclore, quando elas podem visitar, dentre outros, o Saci-Pererê, a Mula-sem-cabeça, o Boto-cor-de-rosa, o Caipora, o Curupira, a Comadre Florzinha e a Iara.Todos folcloricamente enjaulados.

O folclore foi uma invenção do império britânico, disseminada a partir da metade do século XIX para promover o isolamento da cultura popular das suas lendas, crenças, canções, ritos e mitos. Assim, ao atravessar gerações ressignificando os sons das matas que inspiraram o nascimento desse mito brasileiro, o cancioneiro sacizístico torna evidente a existência dos rastros da perna invisível da cultura. Depois que li o livro ´Com uma perna só´, de Oliver Sacks (Companhia das Letras, 2003), no qual o autor atribui à música a chave para o retorno do seu membro alienado, foi que me dei conta de que no meu livro/cd ´A Festa do Saci´ (Cortez Editora, 2007) a libertação dos seres imaginários fora feita por meio da música. Foi tec-taqueando em uma velha máquina de escrever que encontrei, inclusive, a mistura de ritmos que libertou o Saci.

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CADERNO 3 
COLUNA (23/10/2008)
Flávio Paiva


Há tempos que eu vinha procurando algo que me ajudasse a compreender a ausência de uma das pernas do Saci Pererê. A versão mais próxima da minha aceitação era a de que ele teria sido um menino escravo que preferira perder uma das pernas a ficar por ela preso ao cativeiro. Ainda com base na parte da contribuição da cultura afro-negreira à formação do personagem, cheguei a atribuir essa amputação imaginária a uma derivação do Osaín, entidade iorubá, cuja representação lhe falta um olho, um braço e também uma perna.

Quando me pronunciei favorável à proposta da Sosaci - Sociedade dos Observadores de Saci, de uso da figura do mais nacional dos mitos populares brasileiros para mascote da Copa do Mundo de Futebol de 2014, a ser realizada no Brasil, os leitores me questionaram quanto a adequação de um personagem que não tem uma perna ser símbolo do futebol. Defendi que o Saci tem as duas pernas, sim, só que uma delas é invisível. Argumentei que todo craque que se preza tem uma perna invisível, que é a perna encantada com a qual desnorteia o adversário na hora do drible.

A justificativa teve uma boa receptividade, mas eu não fiquei satisfeito; queria encontrar mais elementos para compreender melhor o que chamei de perna invisível da cultura. O meu entendimento tinha estendido a metáfora da perna invisível do drible também para o passo do frevo, o lance da capoeira e a outros significantes relacionados a jeitos e trejeitos de lutar, dançar, jogar futebol, enfim, da aplicação de uma magia cultural que me parecia mais profunda.

Outro dia fiz uma reflexão sobre a migração da rabeca, desde o seu uso na antiga pérsia até seu emprego pelas novas bandas da música plural brasileira. Observei seu deslocamento pelo mundo árabe e sua influência no desenvolvimento dos instrumentos de cordas friccionadas com arco, que passaram a ser a base mais freqüente da música sinfônica do mundo ocidental. Mesmo sobrepujada pelo violino, seu derivado mais famoso, ela vem transitando pelo tempo e espaço com sua sonoridade rude e ardente. Cheguei à conclusão de que este é um bom exemplo de rastro da perna invisível da cultura.

Embora um pouco mais confortável eu não me conformava de não saber como se dá essa invisibilidade. Até que descobri a história de um médico inglês que sofreu um acidente numa montanha da Noruega e, após passar por uma complexa cirurgia, constata o desaparecimento psiconeurológico da perna esquerda dentro do gesso. O relato de Oliver Sacks, no livro ´Com uma perna só´ (Companhia das Letras, 2003), me levou a pensar que, assim como a neurociência encontra razões para esse tipo de alienação, deve existir uma neurocultura capaz de explicar os casos de simbolização do sumiço como o da perna do Saci.

O fenômeno da perna invisível da cultura estaria, assim, relacionado à essência das coisas e não à sua forma ou função. Senti que pelas páginas iniciais do livro do doutor Sacks eu me daria a chance de chegar a alguma analogia satisfatória. O autor estava sozinho na hora do acidente que danificou sua perna. A necessidade de sobrevivência o fez descer à montanha em desajeitados movimentos ´astuciosos´ que o organismo, o sistema nervoso, sacou do seu repertório reserva. Se estivesse sendo observado de longe, poderia parecer um saci em redemoinho de neve.

Na dinâmica cultural o feixe neural do imaginário também guarda seus recursos impensados para salvar em equações não-lineares a essência em situações de estresse. Quando a economia da massificação dá a entender que o que existe resume-se ao que ela tem para vender, ela está desnervando o músculo das manifestações artísticas e culturais que estão fora dos seus catálogos. Nessas situações, a sociedade, mesmo entorpecida pela inibição do tráfego neural, se ampara nas individualidades e no que elas têm em comum de memória, identidade pessoal e senso de pertencimento.

No período em que esteve com a perna alheada Oliver Sacks conta que ela parecia um objeto ridículo sem nenhuma relação com ele e quando fechava os olhos não tinha qualquer sensação que indicasse onde a perna estava. Não é o que parece acontecer com o Saci. O moleque tem sinestesia, o senso de movimento também conhecido como propriocepção, impulsos inconscientes e reflexivos que resultam do fato de o corpo conhecer a si mesmo.

A diferença do caso de Sacks para o do Saci é que para o primeiro, a perna estava objetivamente lá, enquanto para o segundo ela desapareceu de modo subjetivo. O fato relevante na esfera neuropsicológica foi que Sacks perdera a imagem interna, a representação da sua própria perna. Na neurologia cultural do Saci, a obliteração da representação da perna não está em um distúrbio qualquer de seu ego corporal, mas em um signo arbitrado pelo feixe neurocultural da brasilidade. Assim, não há como colocar racionalmente uma perna no Saci; desenhá-la do jeito que for. Ela precisa ser percebida na riqueza da sua invisibilidade.

A neurologia cultural, nessa minha formulação, seria a trama dos códigos, das linguagens e das expressões artísticas, na dinâmica social que se reinventa a todo instante, a despeito de ser ou não reconhecida, classificada e manipulada pelos sistemas dominantes. Independentemente das nossas deficiências perceptivas, ela movimenta a perna invisível da cultura em suas andanças clandestinas pelo território das representações culturais, produzindo assimetrias nos processos metatextuais que regem o cotidiano.

O que diferencia a neurocultura da neuropsicologia e até mesmo da ´neurologia do self´, do indivíduo, do ´eu´ vivo, que tem experiências, como defende Oliver Sacks, é que em nenhum momento a perna invisível significa uma morte funcional. A perna do Saci desapareceu, mas não levou com ela o seu lugar. O sumiço na cultura pode ser uma imagem que deixa rastros das coisas não reveladas. E isso lhe dá sentido e existência, não para nos levar ao passado, mas para nos conduzir ao futuro em seu redemoinho simbólico. Por isso o Saci é um mito contemporâneo e transformador.

Esses pensamentos de dissolução e recriação, diante de uma suposta irrealidade material, me levam a deduzir que a perna invisível da cultura, tão bem expressado na figura do Saci, torna-se ininteligível porque toda a nossa competência interpretativa está voltada para a forma. No caso vivido por Sacks, quem diz se há ou não uma perna é a certeza do corpo, é o cérebro; enquanto no caso do Saci é a metáfora, é a conexão neural da cultura. A impressão que tenho é a de que se algum dia a ortopedia e a neurologia da imaginação conseguirem um raio-x e um eletromiograma do Saci, provarão que o seu esqueleto tem duas pernas e que em ambas existe condução nervosa.

A racionalidade urbana aprisionou o Saci na jaula do folclore reduzindo sua perna invisível a um membro fantasma de amputação referendada pelo coto do nervo da tradição. E não me parece bem assim, pois enquanto na neurociência a imagem corporal se adapta com plasticidade aos avisos da experiência, fazendo com que o tempo seja determinante na perda de lugar do membro desaparecido no córtex sensitivo, na minha hipótese de neurocultura a preservação da perna invisível do Saci no mapa cortical da brasileirice tem sido uma prova de vitalidade das fantasias mais puras dos nossos quereres.

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