Trovas

O Batizado

(Ditão Virgílio) 

No brejo sei onde fica
Onde cai água da bica
Tem um pé de jacarandá
Lá na porteira da toca
Na touceira de taquarapoca
Que usa pra fazer jacá

 

Eu estava vindo da cidade
Estou falando a verdade
A porteira abriu sozinha
Eu senti um calafrio
Nos cabelos um arrepio
Quando ouvi um chorinho

 

Passei quase voando
Parecia que levitando
No corpo sentia espinho
A coruja até piou
O curiango gritou
Mas eu estava sozinho

 

Com o seu vôo bem franco
A grande coruja branca
Que se chama suindara
Com seu piado tão triste
Outro igual não existe
Parece rasgar mortalha

 

Até os bichos escondidos
Soltavam um triste gemido
Lá no meio do mato
Gritando pra mim: “Não pára,
Pois o pio da suindara
Paralisa até os ratos”

 

O choro continuava
A criança que chorava
Aquela noite sem parar
Durou poucos segundos
Ficou vagando no mundo
Pois morreu sem batizar

 

Homem e mulher casados
Não podem ser juntados
Muito menos ateus
Chamando o “nome do pai”
De joelho na terra cai
Batiza em nome de Deus

 

Eu que estava sozinho
Lá no meio do caminho
Me sentindo muito mal
Assim que eu escutei
Mais um pouco arrepiei
O canto do urutau

 

É um mau agouro puro
Este pássaro do escuro
Reclamando sua sorte
Diz não ter mãe nem pai
Sozinho no mundo vai
Até encontrar com a morte

 

Em seguida eu notei
E bem longe avistei
Vindo da banda de lá
Uma luz igual lamparina
Bem no morro lá em cima
Era o tal de Boitatá

 

O fogo da podridão
Veio em minha direção
Tentando se aproximar
Quanto mais pra ele se olha
Mais aumenta o fogo da bola
E ele quer se alimentar

 

Mas de repente lá do morro
Juro, gritei por socorro,
Era um estrondo de pilão
Que se escutava rodando
Lá do barranco rolando
Fazendo um barulhão

 

Caiu bem à minha frente
Era um monstro feito gente
Que foi rolando no chão
Meio cachorro meio homem
Era mesmo lobisomem
Que rodou pelo grotão

Um clarão riscou o espaço
Como uma flecha de aço
Vi a grande pedra rachar
Então apareceu uma loura
A encantada Mãe de Ouro
Me convidou para entrar

 

Dizendo ter um castelo
De ouro todo amarelo
Pra mim com ela ir morar
Disse: “Não sei se quero
Ir pra esse mundo paralelo
tenho muito que pensar”

 

Quando estava indo embora
Me falou que qualquer hora
Ela vem pra me levar
Falando “Não tenha medo,
é só cortar seu dedo
e o sangue em mim jogar

 

Vai quebrar o meu encanto
Terá ouro por todo canto
E um rei se tornará
Me terás eternamente
Mas bote em sua mente
Que pra aqui não voltará”

 

Andei mais uns cem metros
Os bichos todos quietos
Quando saiu detrás de um cepo
Um barulho estalando
Perto de mim foi chegando
Dizendo: “Sou corpo seco

 

Eu fui grande fazendeiro
Desse mato sou herdeiro
Mas fui muito cruel
Há muito tempo morri
Mas continuei por aqui

Perdi o inferno e o céu”

 

Mas que danado de azar
Eu comecei a rezar
Pra que mais nada apareça
Ouvi um rinchado distante
Chegou perto num instante
Era a mula-sem-cabeça

 

Puxei a blusa no punho
Escondi o olhar e a unha
Para o brilho ela não ver
Não refletiu quase nada
Voltou a galope pra estrada
Pensei que eu ia morrer

 

Nisto o galo cantou
Toda a força voltou
E em minha casa cheguei
A chave na porta pus
Alguém acendeu a luz
Disseram que desmaiei

 

Dormi toda a madrugada
E depois de ter acordado
A minha história contei
Quase morri de susto
E foi com muito custo
Que lembrava o que passei

 

Um casal tinha escutado
E ficara paralisado
Ouvindo a criança chorar
Me disseram então
Que aquele menino pagão
Eles queriam batizar

 

Logo quando escureceu
E aquele choro apareceu
A coruja piou de espanto
E aquilo foi o aviso
Disseram “Eu te batizo
Em nome do Espírito Santo”

 

Nisto surgiu um negrinho
Dando muitos pulinhos
Com o olho arregalado
Dizendo “Te enganei
Pois fui eu quem chorei
E agora estou batizado

 

Posso fazer o que quero
Até nas rezas mais sérias
Também serei respeitado
De morar no taquaruçu
E ser um Saci comum
Eu já estava enjoado

 

Eu já não fujo da luz
Pode gritar ‘credo em cruz’
Que sumir eu não vou mais
Pode trazer teus rosários
E todos os relicários

Não vou te deixar em paz

 

Às vezes você me atrapalha
Me amarra com três nós de palha
Para um objeto encontrar
Agora fique esperto
Se não fizer tudo certo
Sou eu que vou te amarrar

 

Pode falar pra vovó
Pra ela não ficar só
No cachimbo a pitar
Sua reza já não espanta
Hoje na hora da janta
Brasa nela eu vou jogar

 

Na hora da Ave Maria
Se o nome da santa dizia
Eu tinha que me mandar
Vou aparecer de repente
E vou ficar bem na frente
Somente pra te assombrar

 

Pode rezar três Pai Nosso
Que na Quaresma não posso
Na encruzilhada passar
Não adianta mais nada
Vai estar acompanhado
Do seu lado eu vou estar

 

Agora ninguém me segura
No buraco da fechadura
Eu entro feito fumaça
Se mistura pólvora e fumo
Pensando que dali sumo
Eu apronto outra pirraça

 

Ponho urina na pinga
Quebro sua mandinga
Agora sou eu que caço
Sou benzido e adivinho
E boto meu narizinho
Não caio mais no embaraço

 

Quem jogar a peneira
Vai fazer uma besteira
No rodamoinho que faço
De nada vai adiantar
Na garrafa não vou entrar
Pelos furinhos eu passo

 

Com o terço quer me laçar
Não consegue me pegar
Dentro do rodamoinho
Meu canto é pra confundir
Pois ave vira Saci
Em forma de passarinho

 

Só com uma coisa me espanto
Que vai quebrar meu encanto
E à toda eu fujo a cavalo
Eu só respeito quem viu
E no Natal assistiu
À santa Missa do Galo

___________________________________________________________________________________________________

O canto pra confundir

(Ditão Virgílio) 

Com terço tenta me laçar
Não consegue me pegar
Dentro do rodamoinho
Meu canto é pra confundir
A ave vira Saci
Em forma de passarinho

 

A mata fica tão calma
Eu sou presença da alma
Dos mortos sou beija-flor
Quando vôo no escuro
Sou mau agouro puro
Na noite trago pavor

 

Você tenta me seguir
E chega perto de mim
Lá na moita de espinho
Meu ninho não acha, não
Te deixo sem direção
E nunca acha o caminho

 

Lá no meio do mato
Te deixo perdido de fato
Olhando pra todo lado
A trilha é sempre certa
Mas o medo te aperta
E você fica apavorado

 

Não tenho paradeiro
Sou pássaro brasileiro
Pra tudo se dá um jeito
Você me seguiu agora
Perdido pela mata afora
Caçador eu não aceito

 

De preto e branco rajado
Eu te chamo pra todo lado
Mas continuo por aqui
Você conta pra todo mundo
E vira herói num segundo
Dizendo que viu o Saci

___________________________________________________________________________________________________

O encontro com o Saci

(Ditão Virgílio) 

Um dia lá na mata
Bem perto de uma cascata
Meu pai saiu pra lenhar
Ainda era menininho
Talvez um pouco grandinho
Ele resolveu me levar

Como era de costume
Lá em cima do cume
A lenha ele foi amontoar

Os galhos eram cortados
Os troncos eram rachados
Depois ele ia buscar

Punha a cangalha no cavalo
Os balaios num estalo
E o almoço no borná
Estava muito entretido
Até um pouco distraído
Nem percebeu um estalar

 

Que vinha de trás do angico
Fazendo barulho no cisco
Um negrinho a pular
Com uma perna só
No vento levantava pó
Resolvi acompanhar

O bichinho era sapeca
Com jeitinho de moleque
Comigo queria brincar

 

Ele era muito esperto
Eu acompanhei por certo
Até num guarantã chegar

A árvore muito frondosa
Quase igual peroba rosa
Poucos sabem diferenciar
Mas já estava perdido
Deu um assobio ardido
Não pude mais escutar

 

Eu segui mais um pouco
Lá no pé de muchoco
Me deu água pra tomar
Esta árvore de raiz funda
Só nasce na terra úmida
Fácil de localizar

Se na mata se perder
E a sede estiver pra valer
É só no pé dela chegar

 

Vai encontrar uma mina
Com água cristalina
Sempre pra cima a jorrar

Mas pulando ele correu
E logo atrás também fui eu
No meio do taquaruçu entrar
Pouca gente conhece
Mas esse bambu parece
Coisa do nosso lugar

 

Tem um espinho perigoso
Que é muito venenoso
Se nele a gente espetar
Parece até magia
Vai doer por sete dias
E a dor começa a parar

Lá no meio da touça eu vi
Mais de uns trinta Sacis
Pulando de lá pra cá

 

Com um pedaço de pau
Espantava os picapaus
Que vinham o gomo picar
Os gomos tinham um furinho

De onde saíam sacizinhos
Nos seus cachimbos a fumar
Mal acaba de nascer
Já sente este prazer
Do pito não quer largar

 

Dando até no na minhoca

Puxa o tatu da toca
Pra nele poder montar
Faz uma farra danada
Assobia, dá risada, 
Mas perto não pude chegar
Vi um Saci de espora
Dizendo esperar a hora

Para o cavalo pegar

 

Um Saci não se cansa
Ensinando a fazer trança
Pra no cavalo montar
Nisto revelou dois segredos
Não entendi, tenho medo,

Pra poucos eu posso contar
Logo me levou embora
Dizendo ser alta hora
E seu pai vem te buscar

 

Me deixou atrás de um toco
E dali a mais um pouco

O meu pai veio me achar
Saiu correndo do mato
Contando pra todos o fato
Do Saci me carregar
Ele me deu sorte
Hoje sou um cara forte

E a história posso contar

 

O segredo do Saci
Um agora eu conto aqui
Hoje já posso falar
Uma bruxa lá de fora
Quer acabar com ele agora

Mas nós não vamos deixar
O outro ainda encubro
Só 31 de outubro
Talvez eu possa contar

___________________________________________________________________________________________________

A Festa do Saci

(Ditão Virgílio) 

1
Era um dia de sexta-feira
Fui passear na capoeira
Levei um pedaço de fumo
Andei quase o dia inteiro
Fui sair numa clareira
Pois tinha perdido o rumo

 

2
Fiquei lá bem escondido
Pois pra quem já tinha perdido
E não sabe pra onde vai
Já era de tardezinha
Sabia que daí um pouquinho
O sol vai e a noite cai

 

3
Foi isso que aconteceu
E logo então apareceu
Assombração no lugar
O Cabrá queria fumo
O Saci disse: “Arrumo
Fumo pra você pitar”

4
Foi falar com o Caipora
Que chegou naquela hora
E disse: “Não vou arrumar”
Iluminando igual a vagalume
O Saci pegou o estrume
Pôs no pito do Cabrá

5
Cabrá deu uma tragada
Disse: “Que merda danada
Já estou querendo brigar”
Nisto chegou a Cuca
Dizendo: “Que arapuca
Saci você foi armar”

6
O Saci saiu de pinote
Pois tinha escutado o trote
Quase virou no avesso
Talvez você não entenda
Soltando fogo pela venta
Chegou a mula-sem-cabeça

7
Ela virou uma rainha
Comendo uma criancinha
Morta na noite anterior
Também cometeu pecado
E sete vezes foi xingada
Por um padre pecador

8
Sai fogo levanta fumaça
Até por onde ela passa
O Saci fica invisível
Quase parou meu coração
Pois de toda assombração
É o bicho mais horrível

9
Dando coice foi embora
Quando chegou nessa hora
O tal de lobisomem
Falando para o Caipora:
“Vou contar minha história
Como sou lobo e homem

10
Todos prestem atenção
Eu o sétimo irmão
Por isso cumpro esta sina
Na noite de lua cheia
É que a coisa fica feia
Eu crio cabelo e crina

11
Gosto de ir no galinheiro
Mas eu fico em desespero
Quando os cachorros me atacam
Saio ainda mais correndo
Quando alguém vem me dizendo
Cuidado lá vai a faca

12
Se meu sangue alguém tirar
Sete anos vai pagar
Pra cumprir a minha sina”
Logo parou de falar
Quando ele viu chegar
A tal porca assassina

13
Ela vinha acompanhada
De uma grande leitoada
Todos arrepiando o topete
Um mordendo outro brincando
Fogo do olho soltando
Foi quando eu contei os sete

14
Ela chegou num acordo
Dizendo que foi aborto:
“Todos os sete eu matei
Todos são assombrações
Porca de sete leitões
Nisso me transformei”

15
Dizendo que veio em paz
Com os dois pés pra trás
Logo chegou o Curupira
O Saci disse: “Pára”
Ele queria laçar a Iara
Com um laço de imbira

16
Por causa daquele enguiço
Ele contou o que foi isso
Com voz cheia de mágoa
“Meu rastro que atrapalhou
Quase que ela me encantou
E me levou pro fundo d’água”

17
Então a Iara respondeu:
“Isso foi engano seu
Que deixou o caçador aflito
Enquanto ele se perdia
O que eu mais queria
Era aquele moço bnonito”

18
Caipora falou pro Boitatá:
“Por que você foi ilumina
Aquela cobra tão grande?”
Com seus olhos igual a farol
A pescador tá no anzol
É isso que ela garante

19
Pessoa que me vê então
Que não prende a respiração
E que o olho não fechar
Vai ter cegueira e loucura
Eu viro num boi bem puro
De fogo em combustão

20
Foi o que me salvou
A mão de ouro chegou
Numa grande bola de fogo
O Boitatá se mandou
A cobra grande voou
Pra não cair no seu jogo

21
Disse: “Tenho muito ouro
Mas procuro meu tesouro
Um homem para meus braços
Com uma grande cabeleira
Cegou a matinta-pereira
Com um agourento pássaro

22
“De ser velha e muito feia
Eu já estou de saco cheio
Vou fazer uma besteira
Com meu preto vestido
Quero arrumar um marido
Vou falar com a pisadeira”

23
“Eu sou uma velha pesada”
Falou bem enfezada
“Eu perturbo o sono sim
Deixo paralisado
Nem dormindo nem acordado
Nos sonhos quero pôr fim”

24
Brigando com o corpo-seco
Chegou o cavalo-sem-cabeça
Por causa de seus pecados
Assim corpo-seco diz:
“Nem o diabo me quis
No inferno fui recusado”

25
O cavalo-sem-cabeça
Com o couro do avesso
Que assombração mais feia
Disse: “Saí com a comadre
E também briguei com o padre
Que no inferno tá cheio”

26
Chegou a alma perdida
Ficou bastante dividida
Com aquela situação
Com um gemido bem forte
Foi aí que chegou a morte
E acabou com a discussão

27
Foi a morte que me viu
Não sei como me descobriu
Na moita de cipó-sumo
“Vou dar uma chance de vida
Te deixo sair na corrida
Se tiver um pedaço de fumo”

28
O pedaço de fumo pegou
Foi o que me salvou
E é tudo o que me resta
De lá correndo saí
Mas acho que foi o Saci
Que tomou conta da festa

___________________________________________________________________________________________________

O mundo no fim

(Ditão Virgílio) 

1
Dia trinta e um de outubro
Disse que um segredo encubro
Que me contou o Saci
Agora vou revelar
Resolvi logo adiantar
Para o povo prevenir
Pois do jeito que está indo
Logo sei que Terra finda
Não sei se vou estar aqui

2
Em dezembro no final
Bem pertinho do Natal
Vai surgir um grande horror
Dia que a onda gigante
Virá mesmo num instante
Trazendo um grande pavor
Não sobrará rico ou pobre
Nem poderoso nem nobre
Ou seja lá quem for

3
Mudará o eixo da Terra
Vai ser pior que a guerra
Vocês que previnam o lombo
Será um grande estampido
Pode tapar o ouvido
Na Terra ficará um rombo
Acredite quem quiser
Que até mesmo Lucifer
Também vai levar o tombo

4
É de derrubar o queixo
Com a Terra fora do eixo
Não há Saci que agüente
Só destruição e morte
Vai ser maremoto forte
Ventando a mais de duzentos
O mar voltará pra trás
Virá com força voraz
Aí ninguém se sustenta

5
A onda vai ser tão grande
A água na terra se expande
Trazendo destruição
Homens correndo sem roupas
As mulheres feito loucas
Pelas ruas e sem ação
Mistura barcos e casas
Até mesmo quem tem asas
Não vai ter salvação

6
Vai ser água pra danar
Derrubando o que encontrar
Morrerá quase um milhão
Homem, mulher e criança
Ficarão sem esperança
Da Terra dizimarão
Muita areia e poço
Que para ver os destroços
Só mesmo de avião

7
Vai ser muito desespero
Sofrerá o planeta inteiro
Todo o povo nesse dia
Pega a Índia e o Suriname
E o Sri Lanka com tsunami
Vai sofrer grande agonia
Na Tailândia e na Malásia
Não vai sobrar uma casa
Parece até fantasia

8
O Saci continuou a falar
O pouco que vai sobrar
Serão só pedras gigantes
Pra achar mortos e feridos
Terão que ser feitos pedidos
Para os grandes elefantes
Muito poucos sobreviventes
Que se verão pela frente
Serão mortos a todo instante

9
Vai ser um grande mau cheiro
Quem sobrar em desespero
Procurando seus parentes
Epidemias virão pra valer
E o resto pode morrer
De fome e também de doença
Católico, crente e ateu
Muçulmanos e judeus
Vão pedir por clemência

10
Com este acontecimento
A Terra muda o movimento
E o clima vai transformar
A Europa vai ficar quente
Morrerá lá muita gente
Que o calor não vai agüentar
Vai ter invasão de piscina
Terá mulher de biquíni
Virada de perna pro ar

11
No Brasil vai faltar água
O Saci falou com mágoa
Vai vir grande ventania
Arrancando árvores e casas
O vento vai mandar brasa
Tem tornado todo dia
Vai ser um grande calor
A água vai virar vapor
Mas no outro dia gia

12
A Antártida vai derreter
Muito gelo vai descer
A água invade mais um pouco
Vão sumir muitas cidades
Será grande a calamidade
O povo vai ficar louco
Os barcos voltam de ré
Sobe e desce a maré
Balança água no coco

13
Não tem ouro nem moeda
A Bolsa vai ter uma queda
O dólar não vai mandar
A América do Norte sem apelo
Vai ser coberta de gelo
E nada lá vai sobrar
Com a Casa Branca congelada
Até a bruxa malvada
Não vai ter onde morar

14
A bruxa pega a vassoura
Para esconder seu tesouro
Nas grutas do Afeganistão
Mas sofrerá um ataque
E vai cair lá no Iraque
Bin Laden a terá na mão
E daí o bicho sacode
Porque então a bruxa explode
Como bomba num avião

15
Pode sim ficar com medo
Porque mais tarde ou mais cedo
E é aí que a Terra pára
Então vai ter mais horror
Para todos trará pavor
Tombando as Ilhas Canárias
O balanço vai ser forte
Desde o Sul até o Norte
Até pros lados da Somália

16
Com a grande explosão na Terra
O mar chegará na serra
Trazendo mais sofrimento
Nada mais irá sobrar
Habitantes da beira-mar
Morrerão os cem por cento
Chance não terá não
Porque até o avião
Será levado no vento

17
Foi ele que preveniu
O mundo acaba em dois mil
O resto será lambuja
Então estou falando isso
Quem cometeu injustiça
Pra outro planeta que fuja
Não tendo mais condição
Nem bruxa nem avião
Que vá no rabo da coruja

18
Lá também não terá paz
Porque o tal do Satanás
Castigará sem perdão
Corruptos já estão na lista
Está esperando vigarista
Com seu garfo na mão
Quem inventou a mentira
O diabo diz que atira
Num tacho de sabão

19
Dizendo que vai ser pior
Uns ele já tem de cor
Outros estão em seu talão
Quem espalhou frio e fome
Roubou pra fazer nome
Político que é ladrão
É aí que a coisa aperta
Jogados num tacho de merda
Pra nada mais servem não

20
Este era o segredo
Que de contar tinha medo
Mas revelar eu decidi
Estas coisas tão horrendas
Que já estão acontecendo
Muitas delas eu já vi
Foi isso que ele contou
E quem não acreditou
É só perguntar ao Saci

___________________________________________________________________________________________________

 

Saci e a Mula-sem-cabeça

(Ditão Virgílio)


1
Numa noite estava andando
Escutei alguém conversando
Me causou grande interesse
Fui chegando mais perto
E um desafio era certo
Do Saci e a Mula-sem-cabeça
Um dizia “Vai embora
Pois já são altas horas
Por favor vê se me esqueça”

2 Mula
A Mula falou assim:
“Tome cuidado, Saci,
Pois eu sei de sua fama
Nas pessoas joga brasa
O relógio diz que atrasa
E puxa os outros da cama
Trança a crina de cavalo
Joga o gado no valo
Do peixe tira a escama”

3 Saci
“Olha aqui, sua Mula,
Cerca sei que você pula
Para namorar o padre
Estão falando por aí
Que viram você sair
Com o seu próprio compadre
Quando entrou no convento
Eu estava lá no vento
Vi você enganar a madre”

4 Mula
“Tome cuidado, Perêrê,
Que dou um coice em você
Te faço daqui sumir
Você persegue o animal
Monta nele e desce o pau
Somente para se divertir
Se a moça grávida ficar
Ou alguém estiver de azar
O culpado é você, Saci”

5 Saci
“Seu coice é igual navalha
O pavor você espalha
Ferindo quem encontrar
O seu fogo causa medo
Mas sei outro segredo
Que ouvi de você falar
Você pegou este encanto
Na sexta-feira santa
Namorou antes de casar”

6 Mula
“Estou sabendo que você
A sua perna foi perder
No meio da capoeira
Outros falam que é no valo
Quando caiu do cavalo
Aprontando brincadeira
Dizem que foi na cisterna
Que cortou a sua perna
Por causa de ser arteiro”

7 Saci
“Disso você não se esqueça
Que perdeu sua cabeça
Pois cometeu traição
O padre você atiça
Sete vezes antes da missa
Ele te deu maldição
Com seu pescoço cortado
Agora paga o pecado
Sofre essa transformação”

8 Mula
Disseram, não sei se ouviu,
Que sua mãe prostituiu
E você morreu pagão
E agora paga esse preço
Espírito de moleque travesso
Só quer fazer gozação
Não sei se isso é certo
Agora negrinho esperto
Me dê uma explicação”

9 Saci
“Isso é fofoca de homem
Que vira lobisomem
Por causa de sua língua
Sem motivos solta a fala
Mas é chamado de mala
Bem pior do que uma íngua
Mentiroso muito sério
Quando ele ficar velho
Sei que vai morrer à míngua”

10 Mula
“Eles inventam de mim
Também não sou assim
Como fala esse povão
Que saio da minha cova
Quando é a lua nova
No meio da escuridão
Faço pau virar cavaco
Tiro fogo do meu casco
E papo anjinho pagão”

11 Saci
“Então você foi rainha
Que comia criancinha
À noite, no cemitério
Quando o rei descobriu
Disparada você saiu
Acabou o seu império
Não me lembro quem falou
Que você também roubou
Um bebê no necrotério”

12 Mula
“Ô moleque atrevido
Deixe de ser metido
Pra falar da minha vida
Na perna te dou um coice
Corta mais do que foice
Fica a outra perna perdida
Se eu acertar sua boca
Ou arrancar sua touca
Não sobra nem a ferida”

13 Saci
“Eu me desvio no vento
O seu rabo eu arrebento
Sua mula pecadora
Vai cumprir a sua sina
Ou te faço trança na crina
E corto você no couro
Não adianta discutir
Pois sabe que eu sou o Saci
Não agüento desaforo”

14 Mula
“Sou mula-sem-cabeça
Nada no mundo obedeço
Mato quem estiver na estrada
Você quer me fazer frente
Agora você agüente
Pois topou essa parada
Faço você explodir
Tome cuidado, Saci
De você não sobra nada”

15 Saci
“Brilho pra você não arrumo
Pois eu já escondi o fumo
E apaguei o fogo do pito
Já posso sumir no pó
Sua mulinha bocó
No seu fogo eu não frito
Está faltando um arreio
Eu pego você no freio
Chego a espora e solto um grito”

16 Mula
“Não sei se você escapa
Vou te prender na garrafa
E arrancar o seu boné
Sei que é muito espertinho
Mas no seu rodamoinho
Não estou botando fé
Sou mais rápida que o vento
Num coice te arrebento
Ou deixo você a pé”

17 Saci
“Já ouvi alguém falar
Quem estronda ao galopar
Não passa na encruzilhada
Diz que você engana
Voltando à forma humana
Quando é de madrugada
Com o cabelo ouriçado
E o pescoço machucado
Suja e toda arranhada”

18 Mula
“De você ouvi ainda mais
Chupa sangue dos animais
Diz que o morcego é culpado
Viaja nas asas dele
E no cavalo em pelo
Você fica dependurado
Faz trança na sua crina
Depois de montado em cima
Mata o bicho de cansado”

19 Saci
“Comedora de defunto
Eu entendo do assunto
Rainha da escuridão
Vá correr atrás dos padres
Namorar com os compadres
Sei que faz tremer o chão
Eu já vou indo por aí
Pois só quero me divertir
Até uma outra ocasião”

20
A Mula rinchou e saiu
Pela estrada sumiu
Igual um carro de fogo
O Saci deu um assobio
Enfrentou o desafio
Como se fosse um jogo
Eu fiquei paralisado
Ouvindo o que foi falado
Com uma cara de bobo

___________________________________________________________________________________________________

Quaresma

(Ditão Virgílio)


1
Eu estava muito mal
Tinha pulado o carnaval
Quatro dias sem parar
Estava muito cansado
Numa ressaca danada
Nem cinzas foi tomar

2
Lembrei que era quarta-feira
Com toda aquela canseira
À noite indo pra roça
Ao passar na capoeira
Fiquei arrepiado inteiro
Sozinho e naquela fossa

3
Ouvi um assobio ardido
Pertinho do meu ouvido
Era o Saci Perêrê
Dentro de um rodamoinho
Pela estrada ele vinha
Tive vontade de correr

4
O Saci eu desafiei
Quando pra ele perguntei
“Quaresma, quantos dias são?”
Ele respondeu:”Entenda, 
Penso que são quarenta
Se for mais, eu não sei, não

5
Nos ritos quaresmais
Que vêm dos orientais
A rigidez é tamanha
Seguida com muito afinco
Excluindo sábado e domingo
Jejum tem oito semanas

6
É uma questão de prática
Fazendo a matemática
Quero que você aprenda
Tirando sábado e domingo
Semana fica com cinco
Oito vezes cinco é quarenta

7
Uma coisa que é certo
Que Cristo lá no deserto
Atentado ele sofria
De cinzas à Aleluia eu conto
Os domingos eu desconto
Quaresma é quarenta dias

8
Para os outros na quarta-feira
Da semana é a primeira
Das cinzas ninguém escapa
Sei que é a preparação
Pra comemorar a ressurreição
Para o domingo da páscoa

9
Na verdade comemora
Uma grande vitória
Jesus superou a morte
Nem carne nem diversão
Somente jejum e oração
Para a fé ficar mais forte”

10
“Se você conhece tanto
O que é semana santa?”
Fui logo rasgando o pano
“Quero que você me explica
O que isso significa
O que é domingo de ramos”

11
“Neste dia de domingo
Jesus com seus amigos
Chegou numa cidade
No templo ele foi pregando
Para todos ensinando
A falar toda a verdade”

12
Continuei a perguntar
Saci começou a pular
Saber mais eu queria
“É mistério ou embaraço
Domingo de ramos não passa
Termina aos quarenta dias”

13
“Respondo, vê se entenda
A cinza da palha benta
Do ano passado vai queimar
Pois Deus disse a Adão
‘Tu és do pó e então
Ao pó você vai tornar’”

14
Começou a me contar
Que Jesus foi jejuar
E também foi atentado
Quarenta noites e dias
Sofreu grande agonia
Do deserto voltou preparado

15
No antigo testamento
Tem no jejum elemento
Para encontrar com o Pai
Quarenta noites e dias
Moisés também não comia
Jejuou no Monte Sinai

16
“Você está preparado?”
Eu falei meio enfezado
Do jejum quarenta dias
“Pois também quero saber
Se você sabe dizer
Do jejum que fez Elias”

17
O Saci ficou nervoso
Me chamou de curioso
“Se quer saber de Elias
Lá no Sinai ele ficou
Quarenta dias jejuou
Refeição foi só um dia”

18
Nisso deu um pé de vento
Eu fiquei muito atento
Fiz uma cara de mau
Então eu mesmo lhe disse:
“Você sabe de tudo isso
Conte o que é carnaval”

19
Assim começou a falar:
“Conto se você tirar
Essa sua fantasia”
Alguma coisa foi chegando
Ouvi muita gente falando
Algumas sombras eu via

20
Foi quando me lembrei
Quem me contou eu não sei
O inferno abre os portões
Na quaresma, primeiro dia,
O diabo engana o vigia
E solta as assombrações

21
“Se você é muito ativo
Carnaval delírio coletivo
Desabafo popular
Num grito de alegria
É o canto da poesia
Antes da quaresma entrar

22
Da carne é despedida
Quarenta dias seguidos
Se comer você vai pecar
Se é oito ou seis semanas
Isso não está importando
Quaresma é pra respeitar”

23
Ainda disse o Perêrê:
“Sou mais velho que você
No calendário oficial
Foi Cascudo quem falou
Que um grupo serrou
Uma velha no carnaval

24
E nesse divertimento
Gente ainda sustenta
Desde o Sul até o Norte
Com uma tábua a serrar
Fingindo a velha matar
O grupo espanta a morte”

25
“Ô Saci deixe de história
Tenho que ir embora
Sei que pecado eu não fiz
Você não me leve a mal
Só brinco no carnaval
Aqui na nossa São Luiz

26
Pode até falar mal
Mas o nosso carnaval
Ainda é o melhor talvez
Ano que vem de novo
Lá no meio do povo
Estarei pulando outra vez”

___________________________________________________________________________________________________

O Saci e o santo 
(será o Benedito?)

(Ditão Virgílio) 

Noite de tempestade e ventania
Os gomos do taquaruçu zunia
Dando tiro na escuridão
Centenas de Sacis nasceram
Do gomo da taquara desceram
Fazendo um barulhão

2
Com o gorro equilibrado
No seu coquinho pelado
Procurando reinação
Com o pito aceso na boca
Olhos espertos e loucos
Para pôr o pé no chão

3
O último que saiu
Um cavalo ele já viu
E no seu lombo pulou
O cavalo assustado
Varava o pasto disparado
Até uma cerca ele saltou

4
O coisinha preta em cima
Fez trança na sua crina
E dele não desgrudou
Na fazenda a criançada
Ouviu o assobio e a risada
E desse jeito gritou:

“Saci Perêrê de uma perna só
Tá querendo pitar
No cachimbo da vovó”

5
Ele deixou seus irmãos
Perna só e duas mãos
Arte fazendo sozinho
Assustou os viajantes
Pediu fogo num instante
Para acender seu pitinho

6
Fez o leite derramar
Quando aconteceu de passar
No fogão devagarinho
Pipoca virou piruá
No ninho começou a xingar
Gorou os ovos da galinha

7
Pôs lenha para queimar
Fez o feijão esturricar
Numa passada que deu
E um pouco mais depois
Jogou areia no arroz
E a panela se perdeu

8
Colocou sal no café
E passando o seu pé
Até a carne fedeu
Encheu de pimenta o frango
Caipira perdeu o rango
Pois sua boca ardeu

9
Das aves a pena arrancou
Na encruzilhada dançou
No sábado de aleluia
Um homem furava a canga
Ele enroscou a manga
Quebrou o arco da pua

10
Por três horas bico calado
Para agir de madrugada
Ficou namorando a lua
A mulher não acreditou
Do Saci ela zombou
E ele deixou ela nua

11
No trabalho entrou no meio
Para o dono dizer nome feio
A ferramenta ele escondeu
Deixou o caipira sem rumo
Pois gastou todo seu fumo
De cinza o cachimbo encheu

12
No monjolo de farinha
Perêrê chegou de mansinho
Perto de um homem escondeu
Com um monte de brasa na mão
Jogou em cima dele então
E rindo desapareceu

13
Um negro cheio de mandinga
Cuidava do alambique de pinga
Para a turma não abusar
O crioulinho chegava
Fumaça do cachimbo tirava
Mas não conseguia tragar

14
O homem não ligava
Mas enquanto cochilava
O Saci já foi aprontar
De brasa encheu seu pito
Na bota jogou e deu um grito
Só pra ver o negro pular

15
Arteiro que não se cansa
Brincando com as criança
Contra elas nada fazia
E na moita em que ficava
Em cabriolas pulava
É só isso que ele queria

16
Girava no rodamoinho
Poeira ia e vinha
No vento que até chia
Saltando pra todo lado
Alegrando a criançada
Igual aos passarinhos pia

17
Pra pegá-lo num segundo
Peneira com cruz no fundo
E no vento ele é prendido
É só o gorro dele tirar
E um pedido falar
E na hora é atendido

18
Um dia um homem prendeu
E um palácio ele deu
Para conseguir se soltar
Quando solto foi embora
Não foi benzido e na hora
O palácio foi pro ar

19
Numa ponte foi morar
Para as pessoas assombrar
Assobiava e dava grito
Jogava pedra nas costas
Se não desse o que ele gosta
Que é fumo para seu pito

20
Um dia foi acusado
Na ponte foi pendurado
Cometeu grande delito
Sete anos condenado
Brincou com o santo errado
“Será o Benedito?”

___________________________________________________________________________________________________

O Saci esteve aqui

Olá, para todos:
Apenas um verso que escrevi em 1987 aî em São Paulo, quando em Brasilia 
estavam (me parece) escrevendo uma nova Constituição. Então me veio a 
idéia de escrever "O Sacî esteve aqui". Espero que gostem.
Abraços do Álvaro N. de Paula
Torrance, California....USA


O SACI ESTEVE AQUI

(Álvaro N. de Paula – 1987)


Ó gente lá de casa. O Saci esteve aqui.
O que ele contou, deu tristeza de ouvir.
O negrinho, coitado, chegou tremendo, todo assustado
Veio de avião com um árabe fanático sentado ao seu lado.
Pensou que o seu dia tinha chegado. Mas se acomodou
Pois dei-lhe uma boa pinga, e isso o acalmou.

Logo depois, porém, pobre capetinha, se deu a lamentar
Estava tão desolado. A ponto de chorar.
Pensativo o olhava -- aquela legenda do meu passado
Não podia me conformar -- ver o alegre pernetinha assim perturbado.
Mas com outra pinguinha se sossegou.
E cheio de coragem sua mágoa desabafou.

 

No Brasil, caro irmão, só se vê contradição
O governo constrói usina atômica. O pobre pede pão.
Tanto imposto é arrecadado
Contudo o país vive quebrado.
O cruzeiro, vítima da inflação, foi vestido de cruzado
O consumidor, no entanto, continua crucificado.

 

Quem vive bem é tubarão
O povo tem que se virar para poder comer feijão.
Tudo de bom é mandado para o exterior
Do dinheiro recebido o brasileiro nem vê a cor.
Há tanta comida. Riquezas. Que abundância!
Mas é tudo controlado pela mão da ganância.

 

A criança pobre, vítima de sua pobreza e da ignorância
Pequena já trabalha -- desconhecendo a doçura da infância.
O preto, o suor de seu passado ignorado, não tem vez
Não estava tão pior quando escravo do português.
E o índio, pelos poetas venerado.
Leva uma vida de condenado.

 

O oportunista com eloqüência ladra sua demagogia.
Enganando as massas mascarado de democracia.
O povo vive num estado de ilusão
Iludido por promessa de político, e sujeito a uma corja de ladrão
O país está enterrado. Todo endividado com banco estrangeiro.
Bilhões de dólares! E nem se sabe onde foi parar todo esse dinheiro.

 

A floresta, pouco a pouco vai tombando
Um progresso ilusório seu encanto está roubando.
Nossa flora, nossa fauna, está morrendo
O que não morre o contrabandista está vendendo.
Poluição. Falta de visão. Exploração e corrupção
Varre o país com suas garras de destruição.

 

Nossa identidade, música, cozinha, língua e tradição
Estão adulterando com produto de importação.
Temos que abrir os olhos! Encarar a realidade
Deixar o mundo da fantasia -- entrar o mundo da verdade.
Devemos preservar nossa cultura! Nossa singularidade
Nunca esquecer nosso valor -- nossa doce humanidade.

 

Em Brasília estão redigindo uma nova Constituição
Uma carta de deveres que garante direitos e proteção.
Mas temos que apoiá-la com patriotismo e devoção
Não podemos abandonar esta grande nação.
Não é crime ser pacífico, tolerante e bem-humorado
Mas é crime testemunhar injustiça e ficar calado.

 

Enfim, caro amigo, me perdoe a emoção
Tinha que abrir a boca. Desafogar o coração.
Proteger o Brasil é dever de todo brasileiro
Contra todo e qualquer usurpador. Nacional ou estrangeiro.
Nosso passado é um passado de luta, sacrifício, e glória
Não podemos desapontar os Vultos de nossa história.

___________________________________________________________________________________________________

"Antídoto para o Esquecimento"
(Clarice Villac – Ilustração: Vlad Camargo)

O veneno do imperialismo cultural
Perverso ameaça
Nossa herança nacional
Pra que nosso folclore não vire fumaça
Precisamos de jeitinho e arte
Sabedoria e muita graça
Despertar histórias em toda parte
Nas estantes empoeiradas, nos ‘causos’ dos avós
É hora de acordar, vibrar vivo estandarte
Sacis, Curupiras, mães-do-mato, venham a nós !
Encantaremos os desmatadores vis
Biodiversidade nas matas, nos mitos, não estamos sós !
Assombraremos madeireiras e raloins com os Sacis !
Sacizada, molecada, imaginação, Iaras dos rios 
Sairemos do esquecimento, verdejantes Brasis !

___________________________________________________________________________________________________


125 anos

gorrinho vermelho
aparece desaparece
sorriso maroto

traz a notícia:
'Hoje tem festa na Sacilândia,
Monteiro Lobato aniversaria !'

pioneiro, pai de nosso imaginário
irreverente, pensamento livre,
transporta gerações,
das cidades ao convívio no Sítio
e viagens ao céu, à gramática,
aritmética, labirinto do minotauro,
chave do tamanho, almas de hamadríades...
evolução do pensamento humano
nas artes de uma boneca gente,
na sabedoria de um sabugo de milho...
brincadeiras, descobertas, convívio...

bolo de fubá
e histórias da vovó
Vive, Lobato !


Clarice Villac
17.04.2007 

___________________________________________________________________________________________________

Sacisperto & Sacimeiga

Ilustração: Vlad Camargo

Por aqui nestas Campinas
Venta muito, venta sim !
e tem moitas pequeninas
pra criar o Sacizim !

 

De um jeito disfarçado,

bem aqui nesse jardim,
mora o casal encantado:
Sacisperto & Sacimeiga !

 

Com cachimbinho do lado, 
mas coração de manteiga, 
passam o dia entretidos
nessa lida nada leiga...

 

Em aventuras metidos, 
ajudando o Curupira
estão sempre divertidos, 
com urbanóides na mira.

 

Escondendo os gatinhos
usam truques de caipira, 
acolhem os cachorrinhos
que as gentes abandonam
jogados pelos caminhos...

Seus pulos supervisionam
os bichos pro aconchego
nova vida impulsionam, 
para lares com chamego!

 

E levam esses amigos
ao merecido sossego!
Nas cidades há perigos
e Sacis fazem sua parte!

 

Vão além dos seus umbigos, 
saltitantes nessa arte!

 

Clarice Villac
04.06.2007 
Campinas-SP

___________________________________________________________________________________________________

Da Saciagem

Saci na mata

fica na moita

quando a coisa não ata e nem desata

e se o frio açoita

como incompreensão aristocrata

junto, a Saci com ele pernoita

e espantam o frio burocrata -

Alegria & Poesia, e só a Lua tresnoita.


Clarice Villac
13.06.2007
Campinas-SP

___________________________________________________________________________________________________


Saci, moleque brasileiro

Ditão Virgílio

1

Num tempo muito antigo
Numa época diferente
A Terra partiu no meio
Separou tão de repente
A África e o Brasil
Viraram dois continentes
Devagar se afastando
Mais e mais dali pra frente

2

Um neguinho que brincava
Tão entretido não viu
Perdeu uma das pernas
Quando a rocha explodiu
Naquela grande rachadura
Ele quase que caiu
Viu a mãe África se afastando
E ficou aqui no Brasil

 

3

Tentando desesperado
Pro outro lado voltar
Quis virar um passarinho
E pelos ares a voar
A distância aumentou
Não conseguiu atravessar
Então foi se acostumando
E aqui resolveu ficar

 

4

Brincava com os índios

Que habitavam aqui
Fazendo peraltice
Bulindo aqui e ali
Escondendo todas as coisas
Somente pra se divertir
Os índios, indignados,
O chamaram de Saci

 

5

Até hoje sua morada
É no grande bambuzeiro
Trança a crina dos cavalos
Gira no vento o tempo inteiro
Muito esperto bom de bolaBrincalhão e muito arteiro
Acabou se transformando

No moleque brasileiro

___________________________________________________________________________________________________

 

HALLOWEEN TUPINIQUIM

Autor: Simão Pedrosa - Belo Horizonte (MG)

 

Eu me vesti de Saci 
Pra festejar halloween, 
Um trem estranho senti, 
Pulando dentro de mim, 
Amedrontado fugi, 
Caí na mata sem fim.


II

Topei um garoto zorro 
Se rindo como ninguém, 
Girando sob seu gorro, 
Que nem coisa ruim do além. 
Naquele moleque forro, 
Meu corpo girou também.


III

Na esperança que o Saci 
Abortasse a diabrura, 
Assombrado, então corri 
No meio da mata escura, 
Perdido que nem Zumbi 
Saído da sepultura.

IV

Mas o moleque danado 
Rodava que nem pião, 
Deixando-me estonteado 
Naquela situação, 
Sem poder ficar parado 
No meio da agitação.


V

Fui entrando mato a dentro, 
Sem saber pra onde ia, 
Cabeça fora do centro, 
No corpo que rodopia, 
Na boca, um sabor de coentro, 
Na fala que não saía.


VI 
Foi aí que vi, então, 
Um ente descomunal, 
No corpo de um anão 
Montado num animal, 
Pelado que nem adão, 
Brandindo seu arsenal.

 

VII 
Coberto de farto pelo, 
A cara de um olho só; 
Era aquilo um pesadelo! 
De tão feio, dava dó. 
Melhor seria não vê-lo 
Pra cabeça não dar nó.

 

VIII 
Era a tal de Caipora 
No seu porco agarupada, 
Que no ato sem demora 
Convocou sua brigada. 
Um por um, na mesma hora, 
Foi chegando à galopada.

 

IX 
Caipora então chamou 
Curupira e Boitatá, 
Jaterê aconselhou: 
-Chame a Cuca e Rudá. 
E a roda se formou 
Em nome de Anhangá.

 


Também veio a Iara, 
Deus Monâ e Guaraci, 
Lobsomem caiçara, 
Papa-figo e Abaangui. 
No meio da noite clara, 
Foi que apareceu Jaci.

 

XI 
-Se é o Saci, não reconheço! 
Disse logo Boitatá,


Não vi o moleque travesso 
Pulando de lá pra cá; 
Com Saci, não me aborreço, 
É melhor deixar pra lá.


XII

-Também não é caçador. 
Caipora adiantou, 
Bicho-homem é assustador, 
Este nem me espantou. 
-E nem mesmo lenhador. 
Curupira emendou.


XIII

Mas nesse impasse absurdo, 
O que seria então? 
Esse estranho abelhudo 
Rodando que nem pião, 
Com este gorro pontudo 
E uma garrafa na mão?


XIV

O que seria afinal 
Esta figura estranha? 
Algum duende infernal, 
Ou certa bruxa medonha 
No meio de um ritual 
De uma vil artimanha?


XV

-É uma bruxa com certeza, 
Afirmou Mapinguari. 
Que saiu da profundeza 
Pra engolir nosso Saci, 
Pois falando com franqueza, 
Coisa igual, eu nunca vi.


XVI

Veio lá do estrangeiro 
Pra fazer feitiçaria 
Para o povo brasileiro 
Esquecer nossa magia. 
Quem aqui é trambiqueiro,


Não merece honraria!

XVII

-Por Tupã é que suplico, 
Salve nosso irmão Saci 
Desta bruxa que é um mico! 
Manifestou Guaraci, 
Do meu posto me abdico 
Se ela fica por aqui!


XVIII

Sou capaz de ir-me embora 
Dessas terras de Anhangá. 
Onde reina a Caipora, 
Curupira e Boitatá, 
Nenhuma Bruxa de fora 
De galo aqui cantará!


XIX

-Muita calma pessoal! 
Ponderou Jurupari, 
Isso tudo cheira mal 
Que nem bunda de sagui. 
Mais parece um capiau 
Travestido de Saci!


XX

Não se avexe minha gente, 
Vou armar uma arapuca. 
Tenho aqui na minha mente 
Certa ideia bem maluca: 
Colocar o tal demente 
No caldeirão quente da Cuca.


XXI

Ouvindo isso, o Saci, 
Num pé-de-vento, acudiu: 
-Pessuar, ispera aí 
Carái, puta qui pariu! 
Qui furdunço é esse aqui? 
Deu um trago e se riu.


XXII

Nun tá veno qui sô eu 
Festejano o raloím, 
Co´o bocó qui si meteu 
Co´os assunto do sem-fim? 
Esse abeiudo aprendeu 
Qui ninguém manga de mim!


XXIII

Atarantado fiquei 
No meio da confusão. 
Quis correr, mas tropiquei, 
Cai de cara no chão. 
Depois de um tempo acordei, 
No meio de um capão.


XXIV

A noite havia fluido, 
O dia já estava a prumo. 
Matutando o acontecido, 
Levantei meio sem rumo. 
Foi um sonho descabido! 
A desculpa, logo assumo.


XXV

Mas olhando bem pra mim, 
Eu me vi como um Saci. 
Lembrei-me do halloween, 
Como fui parar ali, 
Da bicharada em motim 
No beira de um frenesi.


XXVI

Nessa noite de Zumbi, 
Na minha imaginação, 
Sem querer eu aprendi 
Muito caro esta lição: 
Em terra de Rei Saci, 
Halloween não vinga não!


XXVII

Toda lenda neste mundo 
Segue a própria tradição,


Num sentimento profundo 
Na alma de uma Nação, 
Não importa se oriundo 
Da crendice ou da razão.

 

XXVIII

É tão rica nossa lenda 
Quanto a nossa natureza, 
É preciso que se aprenda 
Valorar esta riqueza, 
Retirar de vez a venda, 
Pra enxergar nossa grandeza.


XXIX

Celebrar lenda estrangeira
É sinal de ignorância, 
Mas a mídia interesseira 
Por dinheiro e por ganância, 
Pra cultura brasileira 
Não dá devida importância.


XXX

Vai o povo, alienado, 
Nossas crenças esquecendo, 
Matando nosso legado 
De forma que não entendo. 
Um povo tão liberado, 
Mas como escravo vivendo.


Autor: Simão Pedrosa 
Belo Horizonte-MG,


http://www.controversos.recantodasletras.com.br/