Confraria do Saci


 

Fundada na cidade de Marília, em São Paulo, no início de 2004, a Confraria do Saci tem por objetivo valorizar a cultura caipira brasileira e conscientizar novas e velhas gerações sobre a importância de preservar a mata, que é onde mora o Saci. No dia 29 de outubro, a Confraria realiza seu II Encontro, quando pretende desprestigiar o raloim das bruxas. “Somos todos jovens acima de 30 anos”, diz Paulo Ramos, um dos 15 confrades.

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É Tempo de Saci


 

Mais do que nunca, é tempo de Saci. É preciso falar de Saci, ver Saci, entender Saci. Afinal, hoje as pessoas estão se esquecendo, não só do Saci, mas da Mula-sem-cabeça, assombrações, Curupiras, Mães d´água, Boitatás e outros bichos . 
Nas escolas (trabalho numa APAE), as professoras conseguem acabar com a magia desses seres encantados, colocando-os como matéria de prova. Imagina, fazer prova de Saci, palavra cruzada de Saci, exercícios de português de Saci, dever de casa de Saci, que horrível.
Isso é coisa de gente doida da cabeça, que nunca viu Saci, não acredita em assombração e acha que Mula-sem-cabeça é mentira. Outro dia, fui falar de folclore para uma sala de 4ª série do ensino fundamental e pedi uma definição do que seria uma lenda, eles responderam: lenda é um monte de história mentirosa que o povo conta p'ra gente, p'ra pôr medo. Grande engano, eu disse, pois, eu provo que não é mentira. Tenho até foto da Mula-sem-cabeça e quem quiser, digo e provo.

Ismael P. Siqueira
Pouso Alegre – MG

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Sinais do Saci

 

Como receber sinais do Saci

 

Olá, tudo bem?

 

Algum tempo atrás, recebi uma carta pelo correio que ensinava a receber sinais do Saci. A carta é esta que vou escrever abaixo, da mesma maneira que recebi e com as mesmas palavras:

 

Para receber sinais do Saci, deve-se, durante um mês, dizer assim: “Saci, vou receber um sinal seu”! Os sinais vêm através de coisas estranhas como visões de vultos, arrepios, sensação de que alguém está chamando e não ter ninguém chamando, sonhos bonitos, barulhos esquisitos, entre outros sinais. Às vezes, os sinais vêm quando menos se espera. Fique atento e não tenha medo. O Saci é do bem.
Tenha um contato pessoal com o Saci. Tire 3 ou mais cópias desta carta e envie para 3 ou mais pessoas. Guarde um cópia com você e terá sorte em muitas áreas da vida, pois estará ajudando outras pessoas a receberem sinais do Saci.

 

Um abraço para todos vocês aí da Sociedade dos Observadores de Saci,

 

Arumam
Chavantes - SP 

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A música e a perna do Saci

CADERNO 3 
COLUNA (30/10/2008)
Flávio Paiva


Em uma vasculhada pelo acervo do pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez), do jornalista Nelson Augusto, da Rádio Universitária e nas minhas próprias reservas fonográficas, encontrei dezenas de músicas compostas por força da existência do Saci-Pererê. Em todas as décadas do último século, o Saci foi cantado com muita espirituosidade nos mais distintos ambientes da música plural brasileira. Esse fenômeno de expressão de vigor marginal aos interesses dos sistemas dominantes reforça a minha hipótese da perna invisível da cultura, segundo a qual os casos de amputações simbólicas, como o da perna do Saci, estariam relacionados a uma resposta neurocultural de valorização das essências e não das formas ou funções.

 

Em 1909, o dueto Saci-Pererê de Chiquinha Gonzaga é gravado pela dupla Os Geraldos. No ano de 1913, a polca Saci, de J.B. Nascimento, chega ao disco de cera pelo Sexteto da Casa. Na década de 20, Gastão Formenti grava uma toada (1918) e uma canção (1929) com o mesmo título Saci-Pererê, mas de autorias de Joubert de Carvalho e de J. Aimberê/Bide. Os anos 30 contam com a canção Teu olhar é um Saci, de Cipó Jurandi e Décio Abramo, na interpretação de Arnaldo Pescuma (1930) e com o batuque Saci-Pererê, de J.B. Carvalho, com o Conjunto Tupy (1932). O título Saci-Pererê se faz presente na década de 40, na polca de Mário Genari Filho (1948), e no arrastapé de Ivani, gravado pela dupla Zé Pagão & Nhô Rosa (1949).

 

E o cancioneiro de sacizisse segue na segunda metade do século passado com o baião Saci, de Antônio Bruno e Ernesto Ianhaen, na voz de Inhana (1956) e duas músicas Saci-Pererê, uma marcha, de Carlinhos e Galvão, registrada por Edir Martins (1957) e um cateretê, de Torrinha e Piracicaba, na bolacha de cera com Torrinha & Canhotinho (1959). Nos anos 60, Araci de Almeida grava a marcha Saci-Pererê, de Henrique de Almeida e Rubi (1960), Demetrius põe a voz em Rock do Saci, de J. Marascalco e Richard Penniman (1961) e Clóvis Pereira interpreta Samba do Saci, de Osvaldo Nunes e Lino Roberto (1963).

 

A década de 70 torna-se fértil em composições sacizísticas. Os Secos & Molhados cantam ´Bailam corujas e pirilampos / entre os sacis e as fadas´, na música O Vira, de João Ricardo e Luli (1973). Os Almôndegas entoam ´Quando a meia-noite me encontrar junto a você / algo diferente vou sentir / vou precisar me esconder / Na sombra da lua cheia / nesse medo de ser um vampiro, um lobisomem, um saci-pererê´, na Canção da meia-noite, de Kleiton e Kledir (1975). Guto Graça Mello compõe Saci, instrumental para o disco do Sítio do Picapau Amarelo (1977), e Saci-Pererê é título de música da Banda Terreno Baldio (1977) e de Guilerme Lamounier (1978).

 

Nas duas últimas décadas do século XX a sacizisse continua com Saci, de Paulo Jobim e Ronaldo Bastos, em vinil do grupo Boca Livre (1980), Sacirerê, de Ruy Maurity e Zé Jorge, com Ruy Maurity (1984), Sasaci Pererê, de Jorge Bem Jor (1986) e Saci-Pererê, de Gilberto Gil (1980). De Niterói, Bia Bedran canta a infância para despertar o Brasil, ´Brincar no quintal / Pra renascer a criança / Moleque levado / Saci-Pererê´, na sua emblemática Quintal (1992). Villani-Cortês lança a peça para flauta A terceira folha do diário do Saci (1994), o violonista Carlinhos Antunes, compõe Saci-Pererê (1996) e a cantora Mônica Salmaso grava Saci, de Guinga e Paulo César Pinheiro (1998).

 

De nota em nota, o Saci pula de século, impulsionado pela música. Itamar Assumpção faz um alerta ambiental, ´Eu fui a Cuiabá pra no Pantanal olhar a bicharada / eu fui pra ver não vi, que decepção senti / Vi quase nada / Eu não vi o quati, não vi anta nem sagüi, onça pintada / Eu não vi o saci, não vi o grilo cri-cri / Vi quase nada´ e canta Adeus Pantanal com Tetê Espíndola (2000). A música Saci de Guto Graça Mello, permanece no Sítio da Dona Benta, mas muda o título para Pererê Peralta, em versão com Carlinhos Brown, ´Pula, pula, some e dança / como uma criança segue seu destino / se esconde na floresta / nunca perde festa / quer se divertir´ (2001). Gal Costa grava Grande Final, de Moraes Moreira para dizer que ´Viver da pé, dá pé viver / Pé de saci / Pererê, pererê, pererê´ (2004). O grupo A Cor do Som balança em cd com Dança, Saci, de Mu Carvalho, (2006).

 

Entro nessa ciranda de saciedade e componho, em parceria com Orlângelo Leal, da Banda Dona Zefinha, a música A Festa do Saci, ´Estou aqui meu Saci / estou aqui chamei você / Pererê chamei você / Pode chegar, me abraçar / o vento é bom de assobiar / Sou Boitatá, sou Caipora / Me apavora, eu vou gostar´ (2007). Em homenagem a Francisco Mignone, a pianista Clélia Iruzun grava Saci (2008). O Quarteto Pererê, que já tinha feito Saci Armorial e Suíte Sacizística, junta as pontas do passado e do presente em uma só roda musical, com a Polka do Saci, adaptação da polca Sacy-Pererê, de Sebastião Nogueira de Lima (1917), e a canção Liberdade Pererê, de Dinho Nascimento, ambas gravadas no cd Balaio, que ainda está para sair da fábrica (2008).

 

A gravação da polca Sacy-Pererê cumpre, um século depois de sua criação, o desejo de um dos participantes da pesquisa que o escritor Monteiro Lobato fez em parceria com o jornal O Estado de São Paulo, em 1917. Mesmo se considerando ´com poucos recursos artísticos´, Sebastião Nogueira de Lima deixou a partitura dessa composição que fez para o Saci, inspirada no canto de chamada de um passarinho, ´habitante de brejos e margens de rios´, que ´quase fala - sacy-pererê´. Ao fazer sua escrita musical, o autor dessa polca para piano declarou literalmente a intenção de contribuir ´para que os novos compositores musicaes se inspirem, concorrendo, assim, para a glorificação do Sacy-Pererê´. E, como felizmente podemos testemunhar, seu esforço não foi em vão.

 

Da mesma forma que a imagem do Saci pode representar, na psicologia junguiana, as sombras da rejeição aos atributos lúdicos que não se ajustam aos padrões de comportamento estabelecidos pela sociedade, essa imagem foi racionalmente segregada nos filtros do prestígio cultural brasileiro, por força dos interesses religiosos e políticos investidos na modelagem da nossa mentalidade colonial. A solução oficial encontrada para evitar que o mito continuasse agindo no cotidiano das pessoas foi a do aldeamento comemorativo. Por isso, em todo mês de agosto as escolas levam as crianças para um passeio no zoológico do folclore, quando elas podem visitar, dentre outros, o Saci-Pererê, a Mula-sem-cabeça, o Boto-cor-de-rosa, o Caipora, o Curupira, a Comadre Florzinha e a Iara.Todos folcloricamente enjaulados.

 

O folclore foi uma invenção do império britânico, disseminada a partir da metade do século XIX para promover o isolamento da cultura popular das suas lendas, crenças, canções, ritos e mitos. Assim, ao atravessar gerações ressignificando os sons das matas que inspiraram o nascimento desse mito brasileiro, o cancioneiro sacizístico torna evidente a existência dos rastros da perna invisível da cultura. Depois que li o livro ´Com uma perna só´, de Oliver Sacks (Companhia das Letras, 2003), no qual o autor atribui à música a chave para o retorno do seu membro alienado, foi que me dei conta de que no meu livro/cd ´A Festa do Saci´ (Cortez Editora, 2007) a libertação dos seres imaginários fora feita por meio da música. Foi tec-taqueando em uma velha máquina de escrever que encontrei, inclusive, a mistura de ritmos que libertou o Saci.

 

 

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O Saci e a perna invisível

CADERNO 3 
COLUNA (23/10/2008)
Flávio Paiva


Há tempos que eu vinha procurando algo que me ajudasse a compreender a ausência de uma das pernas do Saci Pererê. A versão mais próxima da minha aceitação era a de que ele teria sido um menino escravo que preferira perder uma das pernas a ficar por ela preso ao cativeiro. Ainda com base na parte da contribuição da cultura afro-negreira à formação do personagem, cheguei a atribuir essa amputação imaginária a uma derivação do Osaín, entidade iorubá, cuja representação lhe falta um olho, um braço e também uma perna.

Quando me pronunciei favorável à proposta da Sosaci - Sociedade dos Observadores de Saci, de uso da figura do mais nacional dos mitos populares brasileiros para mascote da Copa do Mundo de Futebol de 2014, a ser realizada no Brasil, os leitores me questionaram quanto a adequação de um personagem que não tem uma perna ser símbolo do futebol. Defendi que o Saci tem as duas pernas, sim, só que uma delas é invisível. Argumentei que todo craque que se preza tem uma perna invisível, que é a perna encantada com a qual desnorteia o adversário na hora do drible.

 

A justificativa teve uma boa receptividade, mas eu não fiquei satisfeito; queria encontrar mais elementos para compreender melhor o que chamei de perna invisível da cultura. O meu entendimento tinha estendido a metáfora da perna invisível do drible também para o passo do frevo, o lance da capoeira e a outros significantes relacionados a jeitos e trejeitos de lutar, dançar, jogar futebol, enfim, da aplicação de uma magia cultural que me parecia mais profunda.

 

Outro dia fiz uma reflexão sobre a migração da rabeca, desde o seu uso na antiga pérsia até seu emprego pelas novas bandas da música plural brasileira. Observei seu deslocamento pelo mundo árabe e sua influência no desenvolvimento dos instrumentos de cordas friccionadas com arco, que passaram a ser a base mais freqüente da música sinfônica do mundo ocidental. Mesmo sobrepujada pelo violino, seu derivado mais famoso, ela vem transitando pelo tempo e espaço com sua sonoridade rude e ardente. Cheguei à conclusão de que este é um bom exemplo de rastro da perna invisível da cultura.

 

Embora um pouco mais confortável eu não me conformava de não saber como se dá essa invisibilidade. Até que descobri a história de um médico inglês que sofreu um acidente numa montanha da Noruega e, após passar por uma complexa cirurgia, constata o desaparecimento psiconeurológico da perna esquerda dentro do gesso. O relato de Oliver Sacks, no livro ´Com uma perna só´ (Companhia das Letras, 2003), me levou a pensar que, assim como a neurociência encontra razões para esse tipo de alienação, deve existir uma neurocultura capaz de explicar os casos de simbolização do sumiço como o da perna do Saci.

 

O fenômeno da perna invisível da cultura estaria, assim, relacionado à essência das coisas e não à sua forma ou função. Senti que pelas páginas iniciais do livro do doutor Sacks eu me daria a chance de chegar a alguma analogia satisfatória. O autor estava sozinho na hora do acidente que danificou sua perna. A necessidade de sobrevivência o fez descer à montanha em desajeitados movimentos ´astuciosos´ que o organismo, o sistema nervoso, sacou do seu repertório reserva. Se estivesse sendo observado de longe, poderia parecer um saci em redemoinho de neve.

 

Na dinâmica cultural o feixe neural do imaginário também guarda seus recursos impensados para salvar em equações não-lineares a essência em situações de estresse. Quando a economia da massificação dá a entender que o que existe resume-se ao que ela tem para vender, ela está desnervando o músculo das manifestações artísticas e culturais que estão fora dos seus catálogos. Nessas situações, a sociedade, mesmo entorpecida pela inibição do tráfego neural, se ampara nas individualidades e no que elas têm em comum de memória, identidade pessoal e senso de pertencimento.

 

No período em que esteve com a perna alheada Oliver Sacks conta que ela parecia um objeto ridículo sem nenhuma relação com ele e quando fechava os olhos não tinha qualquer sensação que indicasse onde a perna estava. Não é o que parece acontecer com o Saci. O moleque tem sinestesia, o senso de movimento também conhecido como propriocepção, impulsos inconscientes e reflexivos que resultam do fato de o corpo conhecer a si mesmo.

 

A diferença do caso de Sacks para o do Saci é que para o primeiro, a perna estava objetivamente lá, enquanto para o segundo ela desapareceu de modo subjetivo. O fato relevante na esfera neuropsicológica foi que Sacks perdera a imagem interna, a representação da sua própria perna. Na neurologia cultural do Saci, a obliteração da representação da perna não está em um distúrbio qualquer de seu ego corporal, mas em um signo arbitrado pelo feixe neurocultural da brasilidade. Assim, não há como colocar racionalmente uma perna no Saci; desenhá-la do jeito que for. Ela precisa ser percebida na riqueza da sua invisibilidade.

 

A neurologia cultural, nessa minha formulação, seria a trama dos códigos, das linguagens e das expressões artísticas, na dinâmica social que se reinventa a todo instante, a despeito de ser ou não reconhecida, classificada e manipulada pelos sistemas dominantes. Independentemente das nossas deficiências perceptivas, ela movimenta a perna invisível da cultura em suas andanças clandestinas pelo território das representações culturais, produzindo assimetrias nos processos metatextuais que regem o cotidiano.

 

O que diferencia a neurocultura da neuropsicologia e até mesmo da ´neurologia do self´, do indivíduo, do ´eu´ vivo, que tem experiências, como defende Oliver Sacks, é que em nenhum momento a perna invisível significa uma morte funcional. A perna do Saci desapareceu, mas não levou com ela o seu lugar. O sumiço na cultura pode ser uma imagem que deixa rastros das coisas não reveladas. E isso lhe dá sentido e existência, não para nos levar ao passado, mas para nos conduzir ao futuro em seu redemoinho simbólico. Por isso o Saci é um mito contemporâneo e transformador.

 

Esses pensamentos de dissolução e recriação, diante de uma suposta irrealidade material, me levam a deduzir que a perna invisível da cultura, tão bem expressado na figura do Saci, torna-se ininteligível porque toda a nossa competência interpretativa está voltada para a forma. No caso vivido por Sacks, quem diz se há ou não uma perna é a certeza do corpo, é o cérebro; enquanto no caso do Saci é a metáfora, é a conexão neural da cultura. A impressão que tenho é a de que se algum dia a ortopedia e a neurologia da imaginação conseguirem um raio-x e um eletromiograma do Saci, provarão que o seu esqueleto tem duas pernas e que em ambas existe condução nervosa.

 

A racionalidade urbana aprisionou o Saci na jaula do folclore reduzindo sua perna invisível a um membro fantasma de amputação referendada pelo coto do nervo da tradição. E não me parece bem assim, pois enquanto na neurociência a imagem corporal se adapta com plasticidade aos avisos da experiência, fazendo com que o tempo seja determinante na perda de lugar do membro desaparecido no córtex sensitivo, na minha hipótese de neurocultura a preservação da perna invisível do Saci no mapa cortical da brasileirice tem sido uma prova de vitalidade das fantasias mais puras dos nossos quereres.

 

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