Histórias

O Saci é nosso!
Rogério Geraldo Lima – Palmeira (PR)

 

Perguntem para qualquer criança o que é comemorado no dia 31 de outubro. Aposto que,
sem titubear, responderão: “Haloween” ou Dia das Bruxas. Mas a resposta que eu
gostaria de ouvir é: Dia do Saci. Entretanto, ninguém mais sabe que existe o Dia do Saci.
O que as crianças sabem, e muito bem, é que o Haloween tem personagens como jack-o-
lantern (a abóbora cortada em forma de careta), bruxas, seres fantasmagóricos e os
pedidos de doces nas residências. Muito bom, não fosse o exotismo de um evento
originário da cultura anglo-americana. Não é ressentimento, não, é apenas uma certa
tristeza pelo esquecimento da cultura brasileira, tão bem representada na figura do Saci.
Talvez algumas crianças nem saibam da existência desta figura mítica brasileira. Uma
pena!
 

Tomo o caso do Haloween como invasor da nossa cultura para demonstrar que muito já
se perdeu da riqueza do folclore e da cultura brasileiros em detrimento de manifestações
estrangeiras, notadamente com origem nos Estados Unidos. O que colaborou
imensamente para a introdução e permanência no Brasil de fatos, coisas e personagens
norte-americanos foi o cinema de Holywood com a sua hipnótica magia.

 

Em uma eventual pesquisa de opinião pública que questionasse sobre a preferência entre
o Jeca Tatu e a Família Buscapé, a maioria ficaria com os caipiras do Texas. Entre
Lampião e Jesse James, óbvio é que a vantagem recai sobre o bandido de olhos azuis
interpretado por Brad Pitt, que virou lenda e foi cantado por artistas da country music.
Graças ao cinema, a disputa pelas preferências é desleal. O Jeca Tatu de Amâncio
Mazzaropi fez muito sucesso nos áureos tempos do cinema nacional, mas sucumbiu
indefeso diante da superprodução dada à Família Buscapé. Mesmo com todo o talento e
arte do incomparável Nélson Xavier, o seu Lampião nas telas não tem o mesmo charme
do Jesse James que consagrou Brad Pitt. Como se vê, ficamos de joelhos para os
estrangeiros, mesmo tendo histórias e personagens bem característicos e muito mais
consistentes.
 

Preocupa perceber que a invasão cultural não tem a resistência devida e que as nossas
tradições estão sendo abandonadas e trocadas por coisas estranhas. Pior é perceber que
não é só nas atividades culturais, artísticas e folclóricas que isto acontece. E antes que
seja acusado de xenofobia, quero apresentar minha defesa, parafraseando Mário de
Andrade: tivesse o cinema de Holywood chegado até nós em dias de carnaval, hoje eles
estariam sambando conforme o nosso ritmo.

 

Não caí em desespero porque a Sociedade dos Observadores de Saci mantém acesa a
chama da cultura brasileira. Ensinam até como entender os sinais da presença do
negrinho de uma perna só, que não está apenas e tão somente camuflado em meio a um
redemoinho. Aliás, a entidade reúne os interessados em valorizar e difundir a tradição
oral, a cultura popular e infantil, os mitos e as lendas brasileiras. Seus integrantes
acreditam no Saci, na Iara, no Boto, no Curupira, na Cuca, no Boitatá e nos demais entes
do folclore nacional. Haloween? Não, ninguém ouviu falar disso, pois além de ser difícil de
pronunciar é também difícil de entender. Os nossos entes fantásticos e personagens
populares são bem mais simples, simpáticos e cativantes, assim como é o povo brasileiro.

 

* Crônica premiada com o segundo lugar no 2º Prêmio Escriba de Crônicas 2014,
promovido pela Secretaria Municipal de Ação Cultura da Prefeitura de Piracicaba 
(SP).

SACI: UM CAUSO VERDADEIRO

 

História ocorrida num bairro rural de São Luís do Paraitinga. Contada por um homem com 90 anos de idade como fato verdadeiro, durante a sua mocidade. Depoimento colhido em 2002.

 

Transcrição na íntegra.

 

"Uma coisa aconteceu uma vez no caminho do Bairro dos Pimentas, perto de uma mina de

malacacheta. As pessoas não acreditam em saci nem nada, mas esses bichos ainda tem. Ali aconteceu uma coisa com um homem, um tal de Brás Lotero, que morava na fazenda do

Guilherme Veloso. Ele gostava de umas pingas e foi em São Luís por ali. Ele bebeu umas pingas meio bastante. E veio embora por aquele caminho. Chegou pra baixo da casa onde morou o Zé Francisco, tinha uma capela bem na beira do barranco. Ele usava um cabo de relho grande e passava o cabo pelo ombro e segurava do outro Iado, do jeito de dar relhada.

Chega ali no caminho pra baixo do Zé Francisco, ele viu um negrinho na frente dele, que nem um gato. Um bichinho preto que andava de pulinho com uma perna só. Ficava sentadinho. E o Brás Lotero foi se enfezando... E enfezou! E sentou uma relhada no negrinho. Daí só viu que desandou pra baixo do barranco. Caiou lá e ficou. Pousou lá sem fala, sem nada.

No outro dia tinha um homem, um tal de Pedro Lourenço. Era boiadeiro. Ele ia pra Minas,

comprava boi, cavalada e trazia pra vender. Tinha uma perna encolhida e pra montar cavalo ele segurava na cabeça do arreio e pulava em cima do cavalo. Ele foi em São Luís e quando voltou, ouviu um gemido pra baixo do barranco. Ele ajeitou o cavalo na beira do barranco, olhou e conheceu o tal de Brás Lotero. Ai falou pra ele: 'O que está fazendo aí?’ O outro só fazia 'hummmm...’. Nao falava.

Daí, como ele não podia socorrer porque era aleijado, tinha só uma perna boa, pegou o cavalo e veio embora. Daí chegou, chamou a mulher do Brás: 'fala pra seus filhos arranjar uma rede e arrumar uns companheiros pra ir buscar o Brás, que está caído lá pra baixo da malacacheta. E ele está sem fala, só geme. E não Ievanta’.

Daí o Cândido, que era o irmão mais velho, emprestou uma rede (que era só em fazenda que tinha rede de balançar e as pessoas emprestava até pra carregar defunto). Daí emprestou uma rede e foram oito pessoas. Puseram ele na rede e trouxeram.

Foi uns 15 dias pra ele soltar a fala. A mulher tratando dele com comida na boca, que nem criança. E ele só deitado. Depois que passou 15 dias ele soltou a fala. Daí ele contou o que tinha acontecido.

Depois que deu a relhada, não viu mais nada...”

História colhida em São Luiz do Paraitinga

 

 

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Nheengatu e dialeto caipira

O professor José de Souza Martins, estudioso de cultura popular e um potencial saciólogo, escreveu uma bela carta a um leitor seu, Benedito Carneiro, que muito contribui para o entendimento da linguagem e cultura caipira. Abaixo, o texto do professor:


O considerado “falar errado” nesse caso de fato não é “errado”. Trata-se de um dialeto. No caso do falar caipira, trata-se do dialeto caipira, uma variação dialetal da língua portuguesa fortemente influenciada pelo nheengatu ou língua geral. O dialeto caipira não foi criado pelos jesuítas.

 

Foi-o o nheengatu, que de fato é tupi regulado pela gramática da língua portuguesa, com inclusão de palavras espanholas e portuguesas. A língua nheengatu se desenvolve numa época em que em que o Brasil, sendo colônia de Portugal, era-o da Espanha, em virtude da unificação das coroas desses dois países, de 1580 a 1640. Sobre o nheengatu, o padre Anchieta escreveu uma gramática e deixou várias orações e textos traduzidos. Do século XVII, há o dicionário de Pero de Castilho. Já o dialeto caipira é língua dialetal derivada da interação entre o português e o nheengatu. Estudos pioneiros a respeito foram os de Amadeu Amaral. Mais recentemente Ada Natal Rodrigues fez acurado estudo lingüístico sobre o dialeto caipira na região de Piracicaba. Aliás, na Universidade de São Paulo há um curso regular de língua tupi, ministrado por um competente especialista.

 

O dialeto caipira decorreu, no meu modo de ver, da predominância do português falado sobre o português escrito, num universo de fala em que a população também falava nheengatu cotidianamente, mais do que o português. Minha impressão é a de que o dialeto caipira resulta das dificuldades de nheengatu-falantes para falar o português. É nesse sentido que afirmo que o dialeto caipira é uma derivação ou um desdobramento do nheengatu. Ou seja, estamos falando de populações bilingües. Há algum tempo a Câmara de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, bem na fronteira, aprovou lei que reconhece o nheengatu como língua oficial, junto com o português (e o espanhol), pois sua população fala as três línguas. Presumo que haja casos desse tipo da região fronteiriça do Mato Grosso do Sul.

 

É claro que o dialeto caipira, como qualquer língua, também é dinâmico e evolui. Nota-se isso na facilidade de incorporação de palavras novas da língua portuguesa, neologismos, mas também estrangeirismos, devidamente adaptados à pronúncia dialetal.

 

As dificuldades de pronúncia de certos sons da língua portuguesa pelos índios dos séculos XVI a XVIII e também pelos mestiços, seus descendentes, os chamados caipiras, marcaram fundo as sonoridades do dialeto caipira. Algo parecido com as dificuldades que nós temos para línguas estrangeiras e povos de outros países têm para falar línguas diferentes das suas. Um dos professores de inglês que tive na vida era escocês. Confessou-me ele que, apesar de ter sido educado em língua inglesa, continuava sentindo dores no rosto quando falava inglês (continuava falando o escocês) porque tinha que forçar a musculatura da face para falar a língua inglesa. Ou seja, há certos sons impossíveis de pronunciar corretamente numa boca estrangeira.

 

Os jesuítas utilizaram o tupi como referência para elaboração do nheengatu aparentemente porque foi a primeira língua com a qual tiveram contato no Brasil, falada pelas tribos da costa brasileira. Mas disseminaram o nheengatu em todo o Brasil, no trabalho missionário, até mesmo entre povos de outros troncos lingüísticos, como o jê, povos, aliás, inimigos crônicos dos povos tupi (caçadores, uns, e agricultores, outros). O nheengatu foi na verdade um modo de unificar lingüisticamente tribos que falavam variações da língua tupi. Foi, sobretudo, uma forma de ter além de uma fala, uma escrita.

 

Na verdade, o dialeto caipira, resíduo de uma proibição do rei de Portugal, se refugiu no interior do Brasil, onde era menor o alcance da repressão lingüística determinada pelo monarca no século XVIII. Por outro lado, as cidades da costa, especialmente as cidades portuárias, estiveram sempre voltadas “para fora”, de costas “para dentro”, como dizia Frei Vicente do Salvador, primeiro historiador brasileiro, baiano do século XVII. A maior influência dos portugueses legítimos nessa área da colônia e, depois, do país, firmou-se, sobretudo, a partir do século XVIII, quando a capital da colônia foi transferida da Bahia para o Rio de Janeiro. Além disso, a fortíssima presença do negro escravizado nessa costa, atenuou a importância do dialeto caipira e introduziu sonoridades de línguas africanas, o que é bem claro na Bahia e em Pernambuco, mas também no Rio. Aliás, a USP também tem um curso de língua Yorubá, a mais falada das línguas africanas no Brasil e a mais presente em ritos e práticas religiosas.

 

Espero que esses esclarecimentos lhe sejam úteis.

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O Dinossauro-Saci

Por Marta Gil – São Paulo


01/11/2006

BRASILEIROS DESCOBREM "DINOSSAURO-SACI" NO RIO GRANDE DO SUL
Grupo só achou ossos de uma das pernas do herbívoro de 1,5 m, que viveu há 220 milhões de anos; animal é de tipo nunca visto no Brasil
Concepção artística mostra o novo dinossauro 
Demorou um pouco para que os paleontólogos Max Cardoso Langer e Jorge Ferigolo percebessem o potencial da brincadeira: um dinossauro do qual foram recuperados nada menos que 12 fêmures, todos da perna direita e nenhum da esquerda. Na hora de batizar a nova espécie, não tiveram dúvidas: Sacisaurus agudoensis é o nome da criatura, que está sendo apresentada ao público hoje e representa o primeiro registro no Brasil de uma das principais linhagens de dinossauro. De quebra, pode reforçar a idéia de que os dinos são um grupo de origem sul-americana.

 


 

 

É claro que, na vida real, o bicho não era um saci de verdade, esclarece Langer. A falta do fêmur esquerdo foi mero golpe de sorte no processo complicado e aleatório que leva à transformação de um osso em fóssil. Por algum motivo, a pata esquerda acabou se desintegrando. "Depois que a gente escolheu o nome teve gente que veio nos perguntar se o saci-pererê não tinha mesmo a perna esquerda. Parece que, na verdade, ele não tem a perna direita, mas não faz mal -- afinal, o nome é uma brincadeira mesmo", ri ele.

 

Piadas à parte, o comedor de plantas com tamanho estimado de 1,5 m adiciona uma peça muito esperada ao quebra-cabeças dos dinos brasileiros. Tudo indica que ele pertence ao grupo dos ornitísquios, o mesmo que daria origem a herbívoros gigantescos, como o Triceratops, com seus três chifres, ou Stegosaurus, dono de imensas placas nas costas. Acontece que o Sacisaurus está muito próximo da raiz dessa linhagem, tendo vivido há 220 milhões -- uma época em que os dinossauros como um todo eram um grupo recém-chegado, tentando se firmar num mundo hostil.

 

Sangue gaúcho
Não é de hoje que dinossauros tão antigos quanto o Sacisaurus são encontrados nas rochas gaúchas do Triássico, como é conhecido o período geológico no qual ele viveu. No entanto, todas as criaturas encontradas antes no Brasil pertencem ao grupo dos saurísquios, o outro grande ramo da árvore genealógica desses bichos. É verdade que algumas pegadas preservadas em locais como a Paraíba e Araraquara (interior de SP) indicavam a presença de ornitísquios mais tarde, mas só fósseis poderiam confirmar de vez isso.


Os restos vêm da cidade de Agudo, na região central do Rio Grande do Sul, e vão de vértebras da cauda a pedaços dos quadris, do maxilar e da mandíbula. A mandíbula, aliás, é uma das chaves para o parentesco do bicho com os ornitísquios. Ela tem uma extremidade "banguela", conhecida como osso pré-dentário, que apenas esse grupo possuía. Por outro lado, seu esqueleto é tão arcaico que ele ainda lembra os saurísquios em certos aspectos, como a posição do osso do púbis -- voltado para a frente, e não para trás, como nos ornitísquios mais recentes.

 

Daí uma certa cautela de Langer, que é da USP de Ribeirão Preto, e de Ferigolo, da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, a respeito de como classificar o bicho. "A verdade é que você nunca tem 100% de certeza, mas eu o consideraria um ornitísquio", afirma Langer. Se isso for verdade, o tal osso pré-dentário do Sacisaurus (que em vida estaria coberto por uma espécie de bico, estranhamente parecido com o de um papagaio) dá uma pista interessante de como os ornitísquios desenvolveram a estrutura. No fóssil gaúcho, ele é formado por duas partes, enquanto nos bichos mais recentes ele forma uma estrutura só -- a qual, provavelmente, se fundiu ao longo da evolução do grupo.

 

A extremidade banguela, explica o paleontólogo da USP, provavelmente servia para estabilizar a ponta da mandíbula e ajudar o bicho a mastigar as plantas de que se alimentava. Dinossauros não tinham dentes especializados em triturar comida, como os molares dos mamíferos; assim, o pré-dentário permitia um certo movimento lateral na mastigação, permitindo algum grau de maceração dos vegetais antes que o bicho os engolisse.

 

Origem sul-americana
O S. agudoensis é mais um membro na lista de dinos muito primitivos que fazem muitos pesquisadores suspeitar de uma origem sul-americana para o grupo inteiro -- em especial nas rochas de idades semelhantes compartilhadas entre o sul do Brasil e a Argentina. "O Sacisaurus apenas corrobora esses dados, que já são bastante fortes", diz Langer.

 

Como na época os continentes do planeta inteiro estavam reunidos numa única grande massa de Terra conhecida como Pangéia ("terra inteira", em grego), há gente que critica a idéia, dizendo que a aparente origem sul-americana poderia ser mero resultado do fato de que por aqui as rochas da idade certa foram preservadas, tendo sendo erodidas em outros continentes.

 

"Fica a pergunta: será que a região não tinha os animais ou simplesmente não tem as rochas? No caso da África, parece que é realmente o caso de não ter as rochas. Porém, em outros lugares, como a Índia ou os Estados Unidos, onde isso não acontece, não há nada de dinossauros, ou apenas cacos ínfimos -- o que acaba nos levando de novo para a América do Sul", afirma Langer.

 

O estudo descrevendo a nova espécie foi publicado on-line na revista científica "Historical Biology" e recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.